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Haja vida!

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Há alguns dias houve uma ruptura em minha vida. De verdade. Além das milhões de coisas novas que acontecem a cada dia nessa cidade que ainda me parece nova, uma ruptura literal provocou mais uma mudança. Minha mochila da Billabong (quem me conhece ao vivo, conhece essa mochila) rasgou. E foi de vez!

Na última etapa da mudança para um novo lar (eu digo que as mudanças são mais constantes que a rotina), tentei enfiar meu notebook dentro dela, que até então só tinha carregado meus analógicos e rabiscados cadernos. Ela não aguentou. Sucumbiu. Ela, o zíper e o tecido todo em volta do zíper.

Fui a uma sapataria, que consertaria minha mochila no Brasil por um precinho camarada, em um prazo também camarada. Mas aqui sapataria só conserta sapato mesmo, e o sapateiro me convenceu de que seria melhor eu comprar uma nova, porque técnicos como ele cobram caro pelo que não conseguimos fazer. Alguns minutos de conversa com o simpático Fabian (o sapateiro) e saí de lá pensando…

Quando me disse que não consertava mochilas, mostrei a minha a ele mesmo assim, para que ele avaliasse o estrago. Além de fazer um orçamento por cima, com base no que ele cobrava quando ainda consertava mochilas,  me falou: “Mas essa mochila… não tem muita vida.”

I’m easily ofended, então respondi na hora: “Não lhe falta vida! Sobra-lhe vida, por isso ela está assim, gasta e rasgada!”. E ri, para que Fabian entendesse que ali havia sentimento, e não um pedaço de pano. Funcionou. Pois Fabian se justificou, dizendo que ela já estava rasgada e que não teria muita vida futura, mas que entendia o que eu queria dizer; contou que tinha uma mochila há mais de 16 anos, do tempo em que suas filhas ainda eram pequenas e ele as levava para passear. Hoje, ele a usa para pescar e acampar nas montanhas. Não contente em descrevê-la, foi a um quartinho buscá-la e me mostrou. Era verde musgo, bem simples, com um bordado “España”, mas parecia nova, cheia de vida no passado e com muita vida pro futuro. Disse a ele que a minha tinha a metade da idade da dele, mas gostaria que ela estivesse com a mesma vivacidade que a sua.

Então Fabian me aconselhou que a guardasse como recordação. E eu seguirei seu conselho, mas só até que não precise mais dela fisicamente para me lembrar de tudo que passamos. Mais ou menos o que tenho feito com arquivos antigos que me ensinaram muito e agora só servem para ocupar um espaço que já não lhes pertence no HD interno crimonoso que é a minha memória de milhões de teras. Porque, né?, moving on também significa vida. E pro futuro.

Por Má-Má.

Update:  Fabian não consertou minha mochila, mas o fez com minha bota. Ela está linda, sem rasgos e, de quebra, ganhei esponjinhas de cortesia para limpá-la!

Como superar uma “bad hair phase” – parte I

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Quem já viveu intensamente um “bad hair day” sabe o quanto o cabelo influencia em nosso humor. Pois então… eu vinha tendo um “bad hair day” há algum tempo. Não que eu ficasse o tempo inteiro mal-humorada (até porque quando minha mãe me chama de “Veesssspa”, eu caio na risada. Pareço bem mais louca do que mal-humorada), mas estava sempre com aquela sensação de que muita coisa poderia ser diferente/melhor se eu tivesse outra cara. Ou melhor, outra cabeça. E por que não começar a mudança da cabeça pela parte mais aparente dela: o cabelo?

Há anos (11, precisamente), eu freqüentava a mesma cabeleireira, lá no meu bairro. Passei por vários salões com ela, que sempre trabalhou muito. Cabelo, maquiagem, depilação, pé, mão… tudo era com ela! Na peregrinação pelo corte, digamos, seguro, eu a acompanhei por dois salões até que – é sério – na pior fase ela teve que instalar o salão em uma garagem alugada de uma casa bem estilo anos 70 (que, claro, também tem lá no meu bairro). Minha irmã chamava de “garagento” aquilo que eu chamava de centro de estética. Mas… eu gostava tanto dela. E a atenção, o cuidado, a limpeza, a organização, continuavam iguais. Eu achava divertido e entrava em outro mundo mesmo quando chegava ao salão garagento.

Até que a conta começou a ficar ainda mais negativa. E ela, que fez curso de Empreendedorismo no SENAC, recebeu uma proposta tentadora de um amigo do marido para ser gerente de uma – é sério também – boutique de carnes (que, claro, também tem no meu bairro). Não, não é um açougue. É uma boutique de carnes. E ela, como gerente, atende a clientela fina e elegante, dá dicas de receitas, encaminha as pessoas às gôndolas de carnes exóticas, dá um atendimento todo especial para quem chega ali querendo variar o cardápio “bife-batata frita”, “carne de panela com batatas” e qualquer outra combinação que não resulte em “vaca + algum tipo de tubérculo”.

Como gerente da boutique de carnes, ela foi registrada, passou a ganhar mais e a ter direito a férias, 13º e outros benefícios que só um empregado tem. Então ela abdicou da garagem e montou o salão na própria casa, também alugada, para atender apenas aos sábados à noite (porque a boutique abre de domingo). Uma loucura! A sala perdeu o sofá e a TV e ganhou cadeiras, lavatório, espelho e tudo mais que você encontra em um salão de verdade. Exceto o cachorro, o cheirinho de comida, os brinquedos do filho que eu vi crescer por fotos, uma ou outra peça de roupa que escapavam do piso superior…

Era hora de mudar. Por mim e por ela. Não porque a situação me incomodava, mas porque veio aquele sentimento de quando você sabe que termina. E também porque ela se recusava a ousar um pouco mais no corte e eu, rindo, aceitava os dois dedinhos que ela cortava, ouvindo “Deus dá asas pra quem não sabe voar…”. Foi aí que procurei um salão mais famoso, no bairro vizinho (porque, claro, isso não tem no meu), onde, a julgar pelos profissionais, seria a chance de escapar da lobotomia e apelar para um método mais simples de obter uma cabeça nova: um corte de cabelo diferente.

Foram quatro visitas. E quatro cortes iguais. Iguais mesmo. Os quatro iguais aos dos últimos 11 anos! Eu estava tão acostumada com aquela cara que a cabeleireira não conseguiu me imaginar com outra. Aparou as pontas, subiu um pouco o repicado que estava quase na cintura mas, ao desligar o secador pra arrumar a franjinha rebelde, eu continuava igual.

E foi aí que eu apelei para a May e marquei um horário na cabeleireira responsável pelas madeixas do priminho danado de dois anos, da tia, do tio e dela. Todas bem bonitas e, o melhor, diferentes das minhas.

E é essa experiência trans e pós-mudança radical que eu vou contar no próximo post. Ou você acha que eu ia contar rapidinho algo que demorou 11 anos pra acontecer!?

Por Má-Má.