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Adianta não querer?

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“Eu não queria que o ano/a festa/a viagem/a história/o filme/a banda acabasse…”

Seja qual for a variação dessa frase, já me peguei ouvindo e falando muito ela por aí. É uma forma de demonstrar o quanto a gente está gostando de algo, mostrar nosso apreço por aquele momento e, quando a gente fala de coração, espera mesmo que alguém escute nosso desejo e faça aquilo ali durar mais mesmo. Mas… adianta não querer?

Ou os deuses (ou insira aqui sua divindade de adoração) por aí andam bastante surdos e não atendem os meus pedidos ou, minha gente, a má notícia é que não adianta. Não adianta querer mudar algo que não está no nosso controle e aí estão incluídos basicamente o tempo (aquele das horas e aquele da previsão) e as vontades alheias.

Mas a boa notícia é que, quando a gente toma consciência disso a gente sofre menos! Sofre menos porque não adianta não querer que amanhã seja segunda-feira. A segunda vai chegar e a melhor coisa que a gente pode fazer é se preparar pra ela, seja dormindo mais cedo, seja se organizando pra cumprir todas as tarefas agendadas, seja mudando de canal pra não ouvir a vinheta do Fantástico que deprime tanta gente ou desligando a TV e mudando a rotina do seu domingo à noite.

Não vai fazer nenhuma diferença pro universo inteiro se você não quiser que seus dias de faculdade, por exemplo, não acabem. A vida segue, as pessoas se formam, arrumam empregos de verdade e vão começar uma nova fase da vida. E o importante, quando a gente lida com o tempo – ou seja, o tempo todo, do momento em que respiramos pela primeira vez até nosso último suspiro – é entender que nós vivemos em ciclos e fases e que elas devem ser encerradas para que outras possam começar. Então se a faculdade vai acabar, aproveite seu curso pra aprender com as aulas, com os colegas, com os trabalhos, com os erros, com as festas, com a convivência com pessoas tão diferentes e com tudo aquilo que só essa fase da sua vida vai te proporcionar.

Eu tenho a boba mania de não querer nunca que uma viagem acabe. Mesmo que ela já esteja durando 32 dias, mesmo que eu já não tenha mais roupas limpas, mesmo que eu já esteja com saudades da minha cama, minha família, minha rotina. Na minha última viagem, resolvi que não ia mais falar que eu não queria mais que ela acabasse. Resolvi que, ao invés de ficar sofrendo pela antecipação do fim da viagem, eu iria simplesmente tratar de aproveitar cada um daqueles momentos, daqueles amigos, daqueles dias de descanso. E quando foi hora de voltar, tratamos de aproveitar o caminho para conversar, ouvir música ou qualquer atividade simples que a gente tem vontade de fazer no dia-a-dia, mas que a rotina acaba fazendo a gente deixar pra depois.

Eu também já não quis que este amigo se afastasse, que aquelas se mudassem, que aquela colega de trabalho mudasse de empresa. Ainda assim, todos seguiram seu caminho independentemente da minha vontade e, quando o momento passou, a dinâmica dos relacionamentos mudou, mas o sentimento permaneceu por que era pra ser. E tiveram aqueles que hoje ficam apenas como boas lembranças na memória. E tudo bem, “não há bem que seja eterno nem mal que dure para sempre”, não é mesmo?

O que eu tenho percebido a cada dia é que se a gente tem a atitude de fazer acontecer, se a gente aproveita e vive o presente, cada momento dura apenas o suficiente. Então a gente não precisa mais pedir nem sofrer querendo algo que não vai acontecer.

A parte difícil só depende da gente: viver o presente. Porque tem tanta coisa que nos puxa pra trás e, ao mesmo tempo, tanta ansiedade de prever e controlar o futuro, que às vezes a gente sente que se “só” viver o presente, está deixando de fazer muita coisa. Mas eu tenho sentido que quanto mais a gente tenta fazer muitas coisas ao mesmo tempo, acaba não vivendo nada na sua totalidade. E uma vida pela metade não é a vida que eu quero viver.

Por Carrô.

Tudo passar

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Essa é uma ficha que demorou um pouco pra cair: as coisas mudam. Quer dizer, talvez eu tenha resistido demais a aceitar esse fato por simplesmente achar triste demais o fato de as coisas, as pessoas e tudo mudar. Mas que fique claro que não é qualquer mudança que me entristece, só aquelas que quando acontecem, levam tudo de bom relacionado a alguém/alguma coisa/algum momento e tudo o que deixam é um vazio imenso, abrindo um espaço que leva tempo a ser ocupado. Aquelas mudanças que fazem a gente sentir falta de um tempo bom que não volta nunca mais, manja?

Essas, eu acho que não tinham que acontecer. Mas a vida não quer saber o que eu acho e acaba fazendo as coisas do jeito dela e, bem… a nós resta nos adaptar. Daí que num primeiro momento a gente sofre, chora, acha que o mundo está conspirando contra a nossa felicidade e tudo mais. Depois, meio que vai se acostumando a uma ausência, a um email que não vai chegar, uma piada que não será feita, um comentário que passou. E quando se deu conta, nem viu tudo passar.

A real é que tudo que não é cultivado morre. É assim com a natureza, com os humanos não seria diferente. Então você até encontra uma turma diferente, descobre novos ritmos, aprende a gostar de novos jeitos, mas se nada disso conversa com sua alma (oi, to filosofando), não vai durar nem preencher aquele vazio que ficou lá no primeiro parágrafo.

Por mais que elas sejam desagradáveis, tristes e incômodas, imagino que essas mudanças são uma constante na vida e a saída mais sensata é seguir a direção do vento. Mas isso é a razão falando. O coração diz que vale a pena insistir, resistir a algumas mudanças, porque elas podem ser só passageiras ou – vai saber – tão inaceitáveis que a gente nem considera mudança.

Daí a gente persiste, tenta de novo, finge que não percebeu uma mudancinha aqui, um estranhamento ali… Tudo porque a gente acha que tem coisa valiosa demais pra simplesmente abrir mão assim.

Por Carrô (que também acha que escreveu um post totalmente meio sem nexo).

Ejemplos

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Essa foi uma daquelas experiências pela qual você não espera passar simplesmente porque nunca pensou no assunto. A história é bastante conhecida, já foi retratada em filme e seus sobreviventes foram personagens de documentários e escreveram livros sobre o acontecido. O fato: o acidente aéreo na Cordilheira dos Andes, em 1972, em que 16 pessoas que estavam no avião sobreviveram após 72 dias entre as montanhas.

Como todas as tragédias, esta também já foi contada diversas vezes, sempre com um sensacionalismo que me faz evitar conhecer a fundo tais histórias. E sim, essa é bem aquela em que os caras tiveram que recorrer à antropofagia para continuarem vivos. Daí, que eu tive a oportunidade de ouvir a história completa diretamente da boca de um desses caras: Ramón Sabella.

A princípio, minha expectativa era de ouvir uma história de superação e talvez até com uma pitada de drama excessivo. E aí que eu fui surpreendida! Sim, tudo que aconteceu nesse episódio é realmente forte e dramático, mas ouvi-la pelas palavras de quem a vivenciou e tirou dela uma motivação para seguir em frente foi uma experiência surreal.

Primeiro porque o Ramón tem um cuidado especial no uso das palavras pra contar sua visão de tudo. Segundo, porque em momento algum ele se coloca como vítima de uma tragédia (pelo contrário, ele compartilha tudo que aprendeu de valor com a experiência) e, terceiro – e mais importante –, porque eu simplesmente estava tendo a oportunidade de conhecer a história através de quem a fez acontecer, sem intermediários! Cara, por um instante eu me senti a pessoa mais sortuda do mundo!

Pra quem se ter uma ideia do que isso significa, o fato de o grupo ter se alimentado de carne humana para sobreviver é tratado por ele como “uma necessidade de obter proteína para se manter vivo”. Essa sensibilidade ímpar pode ser sentida durante uma hora e meia em que ele relata os fatos e seu aprendizado a partir de cada dia. A genialidade da palestra do Ramón está em abordar o óbvio sob um ponto de vista diferente – neste caso, as condições extremas e os (quase) encontros com a morte.

Daí, ele fala que percebeu lá nas Cordilheiras que ele, e apenas ele, é responsável pelo seu destino. Coisa óbvia, não? Mas que ele só se deu conta disso quando ouviu no rádio que as buscas pelo avião haviam sido encerradas. O destino daquele grupo, disse Ramón, já estava traçado: eles iriam morrer ali. E a partir daí, perceberam que deveriam agir, buscando uma forma de sair das montanhas.

E para cada acontecimento, uma lição tirada: avalanches, frio, fome, sede… Tudo isso relatado de forma realista, mas sem explorar a dor. E ele continua a tratar de coisas óbvias como a adversidade e aceitação da realidade como fatores motivadores para mudar o próprio destino, o valor do grupo, a atitude positiva como determinante entre aqueles que sobreviveram e os que ficaram nas montanhas…

Numa época em que ser vítima, contar histórias tristes e compartilhar tragédias está cada vez mais em alta, e os valores sociais andam bastante distorcidos, poder ouvir essa história e a postura desse cara foi um respiro e tanto.

Por Carrô.

Hoje aqui, amanha em outro lugar

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Por qualquer motivo tive vontade de ler os textos antigos do Palavra. Comecei com os arquivos do primeiro mês, depois do quarto… e a sensação foi estranha. Então resolvi ler um ou dois de cada mês pra me basear em uma mostra mais justa. Claro que não fiz tudo isso hoje… mas fui lendo aos poucos, durante uns três dias, acho. Cada texto meu que eu lia, tinha vontade de editar. Muitas vezes pensei: “Qué dice esta chica?”, mas na verdade era eu.

Curioso pensar que em três anos tanta coisa mudou. Claro, são três anos. Mas depois de ter certeza de que quase nenhum post meu antigo me agrada hoje, resolvi denominar isso como amadurecimento. Porque não é só uma questão de texto, mas de idéias, de organização de pensamentos, de julgamentos e opiniões que mudaram. E que hoje não me parecem os melhores, mas naquela época refletiam exatamente como me sentia, como pensava e sonhava.

Bom, agora, enquanto escrevo este texto, me sinto um pouco ridícula pelos dois parágrafos que já estão prontos, mas tentarei não apagá-los. Isso porque, óbvio que ler os textos de três anos atrás seria uma experiência instigadora. Claro que nem tudo que foi dito lá faria sentido hoje. O contexto era outro. Outro é pouco. E seria muito frustrante que fosse o mesmo. Então, se o meu raciocínio foi capaz de mudar durante os 10 ou 15 minutos em que comecei com o documento em branco até agora, o que diria de um período de três anos? Boolshit.

Um pouco assustador estar com a cabeça tão desordenada desse jeito… e acho que buscar referencias nos textos antigos do Palavra significa tentar reviver aquelas épocas, das quais sinto tanta saudade. E, ao me encontrar com esta nostalgia, o resultado também foi mais complexo: além, claro, de sorrisinhos e gelinhos na barriga de relembrar momentos tão significantes e delícia, também senti um sossego de estar onde estou agora, de ter passado por tudo aquilo. E de saber que carrego comigo até hoje o melhor daqueles anos. De sentir que, apesar de muito bom, foi passageiro. Que de tudo que vivi, hoje trago lições, crescimento, conquistas e pessoas sensacionais.

A vida tem que ser assim… dinâmica. E se um dia a minha parar em algum canto, e eu ler um texto de três anos atrás e sentir que estou no mesmo lugar, com certeza não terei vontade pra escrever um post sobre isso. Talvez nem ânimo para continuar.

Por May.

O homem do sapato de almofada

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Eu o conheci. Na verdade era um cara, não exatamente um homem. Não sei porque ainda faço distinção entre essas definições, mas para esse cara, o cara de sapato de almofada, eu aplico cara e não homem. Ele mora por Gràcia, um bairro (onde eu não moro) aqui de Barcelona muito charmoso, movimentado e cheio de gente normal e gente diferente.

Eu o conheci num dia em que fui a uma das poucas lavanderias “self-service” daqui, que nem fica tão perto de onde eu moro.  Lotei de roupa nosso carrinho de fazer compras, peguei o metrô e me perdi para chegar a uma praça que já tinha visitado algumas vezes, a Plaza del Sol.

Ela tem um pátio bem grandão e por toda sua volta há restaurantes, barzinhos e esta lavanderia, onde ninguém trabalha, só você. E você ainda paga para isso. Se você precisa de ajuda, tem um telefone de emergência. Sim, de emergência, porque se A Bolha resolve te atacar, você precisa de um telefone de emergência, claro. Eu estive nesta lavanderia por quatro horas neste dia. Na verdade, estive fora dela, embaixo do sol delicioso da Plaza del Sol, esperando que as máquinas gigantes trabalhassem por mim.

Nesse meio-tempo, entre muitas músicas, parágrafos ignorados e movimento em volta de mim, o cara do sapato de almofada se aproximou. Ele usava um chapéu panamá, uma camiseta azul, um lençol amarelo (que só cobria a parte da frente) e um vermelho (que cobria a parte de trás) amarrado na cintura, também usava calça, mas não consegui ver de que cor, tinha um cabelo que era um tufo, black power, e parecia que o chapéu tinha sido encaixado ali com super-glue (como eles chamam Superbonder aqui!). Mas nada disso chamou tanto minha atenção como seus sapatos, ou melhor, as duas almofadas que levava embaixo dos pés, amarradas por dois panos verdes. Sim, era um sapato de almofada. Ele se aproximou e a conversa fluiu em inglês, espanhol e muito sotaque indefinido:

  • Cara do sapato de almofada: Buenos días
  • Eu: Buenos!
  • CSA: Você mora no bairro?
  • Eu: Não. E você?
  • CSA: Sim. Há quase seis meses. Eu gosto daqui.
  • Eu: Eu também! E nem moro aqui.
  • CSA: Você gosta de Barcelona?
  • Eu: Sim. E você?
  • CSA: Sim. De onde você é?
  • Eu: do Brasil.
  • CSA: Brrrrrrésil? (com um sotacão francês)
  • Eu: Ouie. E você?
  • CSA: de Parrí!
  • Eu: Legal!
  • CSA: Você gosta do sol?
  • Eu: Amo! E você?
  • CSA: Eu também. E da praia, você gosta?
  • Eu: Amo! E praia com sol, ainda mais!
  • CSA: Eu também! Você já passou bastante tempo na praia ouvindo o mar?
  • Eu: Sim. E você?
  • CSA: Também! Sabe quando a água fica batendo nas pedras, indo e voltando… doesn’t it sound like…like music?
  • Eu: Sim. Parece mesmo.
  • CSA: Você está esperando algum amigo?
  • Eu: Não… estou esperando minha roupa secar.
  • CSA: Ah, claro!
  • Eu: Ops. A máquina parou. Preciso ir lá buscar minhas coisas.
  • CSA: Vai lá! Obrigado.

E o nosso ciclo acabou junto com o da secadora.

Eu me levantei, a gente sorriu. Quando voltei, o cara já estava iniciando outro ciclo com novos amigos, posando para fotos de uma mocinha bastante interessada em seus sapatos de almofada. E eu segui o meu, pensando que vestir o sapato alheio – ainda mais este de almofada – pode ser mais que confortável… pode… soar como música!

Por Má-Má.

Haja vida!

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Há alguns dias houve uma ruptura em minha vida. De verdade. Além das milhões de coisas novas que acontecem a cada dia nessa cidade que ainda me parece nova, uma ruptura literal provocou mais uma mudança. Minha mochila da Billabong (quem me conhece ao vivo, conhece essa mochila) rasgou. E foi de vez!

Na última etapa da mudança para um novo lar (eu digo que as mudanças são mais constantes que a rotina), tentei enfiar meu notebook dentro dela, que até então só tinha carregado meus analógicos e rabiscados cadernos. Ela não aguentou. Sucumbiu. Ela, o zíper e o tecido todo em volta do zíper.

Fui a uma sapataria, que consertaria minha mochila no Brasil por um precinho camarada, em um prazo também camarada. Mas aqui sapataria só conserta sapato mesmo, e o sapateiro me convenceu de que seria melhor eu comprar uma nova, porque técnicos como ele cobram caro pelo que não conseguimos fazer. Alguns minutos de conversa com o simpático Fabian (o sapateiro) e saí de lá pensando…

Quando me disse que não consertava mochilas, mostrei a minha a ele mesmo assim, para que ele avaliasse o estrago. Além de fazer um orçamento por cima, com base no que ele cobrava quando ainda consertava mochilas,  me falou: “Mas essa mochila… não tem muita vida.”

I’m easily ofended, então respondi na hora: “Não lhe falta vida! Sobra-lhe vida, por isso ela está assim, gasta e rasgada!”. E ri, para que Fabian entendesse que ali havia sentimento, e não um pedaço de pano. Funcionou. Pois Fabian se justificou, dizendo que ela já estava rasgada e que não teria muita vida futura, mas que entendia o que eu queria dizer; contou que tinha uma mochila há mais de 16 anos, do tempo em que suas filhas ainda eram pequenas e ele as levava para passear. Hoje, ele a usa para pescar e acampar nas montanhas. Não contente em descrevê-la, foi a um quartinho buscá-la e me mostrou. Era verde musgo, bem simples, com um bordado “España”, mas parecia nova, cheia de vida no passado e com muita vida pro futuro. Disse a ele que a minha tinha a metade da idade da dele, mas gostaria que ela estivesse com a mesma vivacidade que a sua.

Então Fabian me aconselhou que a guardasse como recordação. E eu seguirei seu conselho, mas só até que não precise mais dela fisicamente para me lembrar de tudo que passamos. Mais ou menos o que tenho feito com arquivos antigos que me ensinaram muito e agora só servem para ocupar um espaço que já não lhes pertence no HD interno crimonoso que é a minha memória de milhões de teras. Porque, né?, moving on também significa vida. E pro futuro.

Por Má-Má.

Update:  Fabian não consertou minha mochila, mas o fez com minha bota. Ela está linda, sem rasgos e, de quebra, ganhei esponjinhas de cortesia para limpá-la!

Uma grande confusão

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Sempre gostei de aprender idiomas, mas, bem mesmo, sei falar poucos: o português, que eu amo e todo mundo – em todo o mundo – gosta de escutar; o inglês, que eu quis aprender quando era bem novinha, que já me tirou de muitos apuros e garantiu meu primeiro emprego; e, o que eu venho tentando aprimorar, o castelhano. Castelhano é a mesma coisa que todo brasileiro conhece como espanhol mas que aqui na Catalunya (ai de quem escrever Cataluña), eles gostam de diferenciar como o idioma da região de Castilla (Madrid e adjacências).

Eis que nessa pera, uva, maçã, salada mista surgiu o catalão que, assim como quem cresce aprendendo-o, é bem do esquisito (o que para mim é elogio, já que eu adoro as coisas esquisitas). Nossa historia começou ainda em São Paulo, na Lins de Vasconcelos, mas foi aqui em Barna (porque Barça é apelido do time, gente), que ele me conquistou e começou a fazer parte do meu mundo. A May já falou dele por aqui, e hoje vou contar como este senhor (porque ele é velho mesmo) causou uma bela confusão (e uma boa história) na última fiesta.

Como sempre, andamos muito e fomos parar em uma das poucas baladas que conhecemos que desafia a madrugada: o Apolo. A música é excelente (às vezes esquisita) e as pessoas, também (aplique ambos adjetivos). Paga-se para entrar, mas disfruta-se de um drink à sua escolha que, se eu já não tivesse pago, nunca compraria. E foi quando eu estava pedindo a minha vodka com Schweppes genérica (blame it on na falta da opção “cerveja”) que um rapaz se aproximou. Eu estava sendo cortejada. A frase de approach foi: “¿Hablas inglés?”. E a resposta foi: “Yes, I do”. Logo me arrependi porque, de cara (e de todo o resto), não gostei dele. Porém, a segunda frase soou: How much is això (esta última palavra aí lê-se “achó”)? Eu, com meu catalão fluente, entendi a frase metade em inglês, metade em catalão, afinal, uma coisa que eu sei é que això em catalão é “isto”. E, claro, achei que estava sendo zoada (blame it on meu passado).

Pois desembestei a falar o pouco que sei em catalão com o rapaz e aí foi ele que começou a achar que eu o estava zoando.  A diferença é que eu estava mesmo. How much is això, mano? ¿Estás de broma? Are you kidding me? Eu sentia que tinha dado uma lição no rapaz que nem foi assim tão simpático, bulinou meu amigo e ainda me achou com cara de ponto de informação. Missão cumprida? Não. Porque,  na sexta à tarde, acordei com essa frase out loud na minha cabeça. How much is això? How much is a…xò? Oooow. How much is…a shot! E… me dei conta da grande confusão. Ri sozinha, ainda na cama, perdoei-o  por ter olhado pro amigo com cara de “Acho que escolhi mal o alvo da paquera” (e por ter bulinado meu amigo), e refleti com a May sobre a possibilidade de estar apagando meu inglês da memória que, danada que é, sequer tem cedido espaço pro senhor (nada senil) que me pregou uma peça e rendeu uma história em que a zoada continua sendo eu!

Por Má-Má.