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Como superar uma bad hair phase – II (e última)

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Então…

Foi assim que eu cheguei ao salão, que fica numa galeria da Brigadeiro, do lado do Cartola Club. Durante o corte, feito a seco, com uma tesoura que a May tentou descrever pra mim como “tipo aquela da escola, pra cortar cartolina”, minha respiração ofegante só não ultrapassava os decibéis da voz da Érica.

Foi com essa trilha sonora que a ouvi falar das suas tentativas frustradas de enrolar o cabelo genuinamente oriental, do aquecimento global, da chatice do Faustão, da tesoura que ela usa há 23 anos, interrompida um par de vezes pela pergunta mais que pertinente: “Você está nervosa?”.

E tinha como não estar?!

Talvez sim. Se eu não transformasse o corte de cabelo numa cascata de adrenalina! Eu deveria ficar preocupada com o fato de aquele ser um dos momentos de maior emoção da minha vida nos últimos tempos? Talvez sim também.

Só sei que, depois que ela jogou um vento (frio, aliás) no restinho de cabelo (foi isso que senti) que sobrou na minha nuca, eu me olhei e pensei: “Por que raios não fiz isso antes?”.

Saí pela Paulista meio sem rumo, só pra avaliar a (auto)receptividade ao meu novo corte. Não olhei pra nenhuma vitrine nem fachada de vidro para ver como ele estava se comportando. E percebi que muita gente olhava pra mim. Ok. Pode ter sido uma alucinação. Ou eu é que estava encarando demais as pessoas e elas eram surpreendidas pela minha cara de “Não notou nada diferente!?”. E a retribuição aos olhares pode ter sido de medo, mas eu prefiro pensar que eram de “Nossa, ficou legal!”

E foi mais ou menos isso que ouvi de todo mundo. Lá em casa, no trabalho e nas turminhas do barulho. Ficou legal. E essa era a intenção com o cabelo, que, estando legal, aumenta a chance de eu inteira também estar. Ok. Vou encarar a cara que você fez agora como um “Foi longe demais, mas… tá legal!”.

Foi legal a mocinha do Cinemark perguntar se eu era maior de idade quando eu e a May fomos assistir a um filme proibido pra menores (desfaçam os risinhos maliciosos. Era um filme muito do violento com o Nicolas Cage, “Vício Frenético”). Mas também foi legal ouvir que deixei pra trás as pontas cacheadas e, com elas, o ar adolescente de quem termina o dia com “Meu querido diário”. E é legal as pessoas tentarem buscar referências para algo que agora é só meu. Segundo o Doug, o cunhado, passei de Farah Fawcett (sim, a Pantera. Podem rir dessa) pra uma mistura de “franja da menina da novela das 7” (já adianto: nada a ver) com Lud do Descolados da MTV (menos ainda, já que o cabelo da moça é hiper liso). Também é legal quando alguém que acabou de me conhecer me diz: “Nossa, não te imagino com outro cabelo!”.

Pra mim, parece que ele sempre esteve ali, pronto pra ser descoberto. E acho que isso só poderia ter sido feito por alguém que não me conhecia. A única adaptação que ainda não fiz por completo é a quantidade de shampoo a cada banho. Uma coisa é certa: eu ando economizando bastante. Assim como a Érica, que se orgulha de contribuir para o consumo racional de água fazendo seus cortes a seco e – desculpem o trocadilho – mudando a cabeça de muita gente.

Por Má-Má.

ps.: a única chance de fazer um “antes e depois” aqui seria com fotos 3×4. E isso não é legal.

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Como superar uma “bad hair phase” – parte I

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Quem já viveu intensamente um “bad hair day” sabe o quanto o cabelo influencia em nosso humor. Pois então… eu vinha tendo um “bad hair day” há algum tempo. Não que eu ficasse o tempo inteiro mal-humorada (até porque quando minha mãe me chama de “Veesssspa”, eu caio na risada. Pareço bem mais louca do que mal-humorada), mas estava sempre com aquela sensação de que muita coisa poderia ser diferente/melhor se eu tivesse outra cara. Ou melhor, outra cabeça. E por que não começar a mudança da cabeça pela parte mais aparente dela: o cabelo?

Há anos (11, precisamente), eu freqüentava a mesma cabeleireira, lá no meu bairro. Passei por vários salões com ela, que sempre trabalhou muito. Cabelo, maquiagem, depilação, pé, mão… tudo era com ela! Na peregrinação pelo corte, digamos, seguro, eu a acompanhei por dois salões até que – é sério – na pior fase ela teve que instalar o salão em uma garagem alugada de uma casa bem estilo anos 70 (que, claro, também tem lá no meu bairro). Minha irmã chamava de “garagento” aquilo que eu chamava de centro de estética. Mas… eu gostava tanto dela. E a atenção, o cuidado, a limpeza, a organização, continuavam iguais. Eu achava divertido e entrava em outro mundo mesmo quando chegava ao salão garagento.

Até que a conta começou a ficar ainda mais negativa. E ela, que fez curso de Empreendedorismo no SENAC, recebeu uma proposta tentadora de um amigo do marido para ser gerente de uma – é sério também – boutique de carnes (que, claro, também tem no meu bairro). Não, não é um açougue. É uma boutique de carnes. E ela, como gerente, atende a clientela fina e elegante, dá dicas de receitas, encaminha as pessoas às gôndolas de carnes exóticas, dá um atendimento todo especial para quem chega ali querendo variar o cardápio “bife-batata frita”, “carne de panela com batatas” e qualquer outra combinação que não resulte em “vaca + algum tipo de tubérculo”.

Como gerente da boutique de carnes, ela foi registrada, passou a ganhar mais e a ter direito a férias, 13º e outros benefícios que só um empregado tem. Então ela abdicou da garagem e montou o salão na própria casa, também alugada, para atender apenas aos sábados à noite (porque a boutique abre de domingo). Uma loucura! A sala perdeu o sofá e a TV e ganhou cadeiras, lavatório, espelho e tudo mais que você encontra em um salão de verdade. Exceto o cachorro, o cheirinho de comida, os brinquedos do filho que eu vi crescer por fotos, uma ou outra peça de roupa que escapavam do piso superior…

Era hora de mudar. Por mim e por ela. Não porque a situação me incomodava, mas porque veio aquele sentimento de quando você sabe que termina. E também porque ela se recusava a ousar um pouco mais no corte e eu, rindo, aceitava os dois dedinhos que ela cortava, ouvindo “Deus dá asas pra quem não sabe voar…”. Foi aí que procurei um salão mais famoso, no bairro vizinho (porque, claro, isso não tem no meu), onde, a julgar pelos profissionais, seria a chance de escapar da lobotomia e apelar para um método mais simples de obter uma cabeça nova: um corte de cabelo diferente.

Foram quatro visitas. E quatro cortes iguais. Iguais mesmo. Os quatro iguais aos dos últimos 11 anos! Eu estava tão acostumada com aquela cara que a cabeleireira não conseguiu me imaginar com outra. Aparou as pontas, subiu um pouco o repicado que estava quase na cintura mas, ao desligar o secador pra arrumar a franjinha rebelde, eu continuava igual.

E foi aí que eu apelei para a May e marquei um horário na cabeleireira responsável pelas madeixas do priminho danado de dois anos, da tia, do tio e dela. Todas bem bonitas e, o melhor, diferentes das minhas.

E é essa experiência trans e pós-mudança radical que eu vou contar no próximo post. Ou você acha que eu ia contar rapidinho algo que demorou 11 anos pra acontecer!?

Por Má-Má.