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A gaivota (melo)maníaca

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Ama a música e destrói topetes. É mais amigável quando vista de longe.

Ama a música e destrói topetes. É mais amigável quando vista de longe.

Olhando para frente, um palco muito bem montado recebia uma dessas pessoas com quem eu adoraria tomar uma cervejinha. Jorge Drexler canta e faz uma dancinha. Eu me arrumo na cadeira e bato palminhas de emoção. Estava tudo escuro. O fundo do palco era todo vermelho e não se via mais que as sombras dos músicos e seus instrumentos.

À direita, um penhasco composto pela mais pura rocha mediterrânea. Em cima dele brilhavam as copas dos pinheiros, tão verdes e tão comuns no litoral da Catalunha.

À esquerda, o mar. Indo e vindo, silencioso, escutando.

Antes do mar, ao meu ladinho, duas senhoras bem velhinhas; ao lado delas, duas cadeiras vazias, das poucas que sobraram.

Olhando para cima, a uma distância segura, estava ela: a gaivota. Até pouco tempo eram várias, mas nesse momento era apenas uma. A gaivota (melo)maníaca. Chamou tanto a atenção que o Jorge também percebeu sua paixão pela música. Com as mãos, fazia o mesmo movimento que a gaivota fazia ao voar. Ele tentava acompanhar suas voltas, suas subidas e descidas. Ela estava hipnotizada, amava demais a música e queria aproveitar o show.

Malandra que só ela, avistou as duas cadeiras vazias e veio descendo com elegância e agilidade, formando círculos perfeitos. Nesse momento, a hipnotizada era eu. Em poucos segundos, percebi que já podia vê-la dando voltas à altura dos meus olhos. Uau…a natureza, Jorge Drexler, a maresia. Mais uma volta e…Aaaaaahhhhhh!!! Puta merda!

 Ela fez um vôo rasante, passou muito perto da minha amiga e quase bateu em mim! Mas a gaivota (melo)maníaca tinha um alvo. Uma das senhorinhas foi atingida na cabeça! A gaivota desmanchou seu penteado e se meteu embaixo da cadeira. A senhora olhava pros lados e não se preocupou com nada mais que arrumar seu topete.

Eu gargalhava. A música seguia, mas a essa altura as quase 800 pessoas do show olhavam para gente. A gaivota continuava lá se debatendo e eu cada vez tinha menos ar para respirar. Um moço que estava na fila da frente se virou, agarrou a gaivota, levantou da cadeira e disse: “Vai!”. E jogou a gaivota pro alto, que em questão de segundos desapareceu.

No lugar onde ela caiu, ficou um monte de caca verde e cinza, do tamanho de dois pimentões. Quem cagou de medo foi ela e não a senhora.

Todo mundo aplaudiu; não o Drexler nem a gaivota, mas esse moço corajoso. Eu não tinha forças para fazer nada além de rir.

Acabou a música. Do palco, Drexler pregunta: “Ei, pessoal que sobreviveu à gaivota, tudo bem por aí?”. A platéia vibra. Eu continuo gargalhando. O topete da senhora volta ao seu lugar.

Sim, Jorgito. Tudo ótimo. Eu tenho mais que claro. Não durou mais que um suspiro (e uma boa gargalhada) e, mais uma vez, você me faz ter a sensação de que a vida não pode ficar melhor do que está.

Para saber como começou esse show (e por que a gaivota gostou tanto), um pouquinho de Mr. Drexler: http://www.youtube.com/watch?v=sOQ9oICEk9k

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Ancestralidade

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Dizem por aí que hoje é o Dia dos Avós. E parece que tem sido assim por uns bons anos já sem que eu me tenha dado conta. Então eu tirei uns minutos do meu dia pra pensar neles: nos meus, nos seus e no papel dos avós nas nossas vidas. Hoje, tenho apenas uma avó que ainda convive conosco. Os demais três já se foram há mais tempo do que eu gostaria – especialmente os avôs, dos quais tenho poucas lembranças. Mas eles ainda vivem, e isso não tem a ver com a crença em outras vidas, outros planos ou qualquer coisa do tipo (isso é assunto pra outro post!).

Eles vivem nos meus pais, nos meus tios, nos meus primos, irmãos e em mim. Não apenas geneticamente, mas também em seu modo peculiar de ver e viver a vida, de encarar o mundo, suas crenças e toda sua força que os fizeram viver o tempo que viveram e nos fazem chegar hoje até aqui. Independentemente das pessoas que foram – uns mais sérios, carrancudos, outros mais debochados e brincalhões –, é graças à força deles estamos aqui. Essa obviedade do assunto não faz dele algo menos relevante.

Elis dizia que a dor dela era perceber que, apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Mas foram eles e os pais dos nossos pais que nos trouxeram até aqui. E antes disso, os pais deles e assim por diante. E a eles, eu sou grata por viverem da forma que o fizeram.

A nossa ancestralidade parece ser um assunto cada vez mais esquecido por nós. Tenho a sensação de que se percebe o mundo como algo pronto, e não pensar sobre estas questões nos afasta da nossa essência como humanos. Saber de onde viemos e tomar a consciência que somos (também) fruto disso, nos dá a sensação de continuidade e força para seguir em frente.

Aos meus avós, minha eterna gratidão.

 

Por Carrô.

#sp17j

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Se sentir parte de algo grande, importante, relevante e histórico. Limpo, pacífico e organizado. E ter certeza que valeu a pena. Sei que todos que ontem abraçaram o Brasil (indo às ruas e gritando frases de protesto ou ficando em casa apoiando as manifestações e se orgulhando de cada um que estava também), compartilham desse meu sentimento hoje.

Aos que insistem em afirmar que tudo isso é por causa de R$ 0,20, meu sinto muito pela ignorância e apatia. Pra mim, esses vinte centavos foram a gota d’água de uma torneira que estava molhando há muitos anos. Ontem, mais de 230 mil pessoas em 12 capitais do País decidiram voltar mais tarde pra casa em uma segunda-feira depois do trabalho. Por quê? Com certeza existem mais inúmeros motivos além do aumento da tarifa do transporte público.

Acho que mais do que mostrar a força e a grandeza de um país visto como acomodado, os filhos desta pátria calaram a boca dos irmãos que não lutam pelo Brasil, daqueles que reclamam todos os dias, mas acham mais fácil se conformar. Dos que preferem abandonar. Planejar morar no exterior, instalar alarmes de segurança em casa, comprar uma boa TV e assistir os jogos de futebol e o Carnaval. E o Jornal Nacional – pra depois poder comentar a “algazarra” dos manifestantes com o vizinho no elevador. Dá preguiça, né, levantar a bunda da cadeira e tentar mudar algo, tentar ser útil diante de uma vida inteira obedecendo. Parece impossível mover um bloco de concreto tão grande. Mas pensemos que se não fosse eu, não fosse você ou cada um que esteve ontem arrepiado e excitado reclamando abusos, não teríamos sido a multidão que fomos. E isso FAZ a diferença.

Para um país que sempre foi visto como muito preguiçoso e fraco para este tipo de manifestação, desculpa, mas me dou o direito de um texto emotivo. Porque quase chorei diversas vezes, o sorriso tava flácido e fixo, e meu coração não parou de pular dentro do peito a cada passo, a cada aceno e a cada mão dada que eu via. Ontem tava todo mundo desabafando, sem medo de gritar. É a vontade de ser ouvido compartilhada com mais 230 mil vozes em todos os cantos do Brasil e do mundo. O povo conquistou algo grande ontem. O Brasil ganhou energia.

Hoje, 18 de junho, pela primeira vez em muitos anos, dá orgulho ler as notícias dos portais na internet e dos jornais. Porque as notícias foram de paz, de coragem e também de esperança. Eu estive lá e estarei sempre que o Brasil chamar. A vontade é de continuar escrevendo aqui, tentando descrever a alegria e o orgulho de fazer parte desse momento. E de listar todos os meus motivos para sair às ruas e dizer “não dá mais”. Mas sei que é um esforço em vão. A verdade é que a sensação hoje deve ser sentida individualmente porque é reflexo de uma ação coletiva simplesmente do caralho.

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Avenida Paulista_17.jun.2013

The end, brotha.

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Pra mim, esse post de hoje é uma delícia por vários motivos: amo LOST e certamente vou chorar qdo me der conta hoje à noite, qdo verei o episódio, que a série acabou; achei ducaralho a Nat escrever o post ontem depois de ver o último episódio da sério do século; e gente, pensa numa convidada que é leitora assídua do Palavra. Tks, Nat. Seja sempre bem-vinda. (Por May)

*Antes de tudo, quero agradecer à May e às palavretes pelo espaço cedido. É muita emoção, minha gente! Também queria pedir desculpas por demorar tanto para escrever aqui. É que um blog tão especial merece um tema à altura.

*Esse post foi muito bem trabalhado para não mostrar spoilers. Se você ainda não viu o “Lost Series Finale Event”, pode ler tranquilo!

01h12. Faz menos de 20 minutos que Lost acabou. Não, não foi só mais uma temporada, foi o fim DA série. Para alguns, o fim de uma era. Essa tortura, que nos perseguiu pelos últimos seis anos, já era. Nunca mais ouviremos “Previously, on Lost”. Suas terças-feiras (ou quartas, no meu caso) não terão mais aquela tão esperada uma hora de suspense, emoção, tensão e, o mais comum, teorias malucas. Agora, depois de seis anos, nós seremos obrigados a ter uma vida social.

Mas, calma aí, “nós”? Por que eu estou me incluindo nisso? Eu não fiquei seis anos vendo Lost. Na verdade, comecei a ver esse ano. Eu tive a falta de vergonha na cara suficiente para conseguir assistir a sete episódios por dia durante as férias da faculdade. SETE, GALERA. Tirando as horas de sono e as do trabalho, esse era o tempo dos dias da semana que eu tinha livre. Fim de semana e feriado? Uuuh, eu não existia.

E, olha, agora só tenho que agradecer que minha tortura tenha durado só alguns meses, viu. Vejo meus amigos que passaram tanto tempo sofrendo por causa disso e fico muito mais aliviada agora. Por quê? Porque, para mim, Lost não terminou como merecia.

Eu, alguém que, há cinco meses, não fazia a mínima questão de ver série nenhuma, fui pega de jeito pela escotilha, pelos apelidos que o Sawyer dava para todo mundo, “live together or die alone”, pelo mistério do 4-8-15-16-23-42, “DUDE!”, “BROTHA!”, “Jin-sushi”, Dharma, entre tantas outras coisas que fizeram dessa uma série tão única.

E são 02h04 e não consegui falar nada do que queria ainda.

Agora são 11h11 e, claro, sonhei com o episódio de ontem. E decidi não dar spoiler aqui, para não diminuir o número de leitores. =p

As opiniões se dividem. Teve quem adorou e teve quem concorda comigo. Na verdade, não sabia o que esperar, porque era tanta coisa que podia acontecer! Mas, a meu ver, uma coisa não anula a outra: Lost foi uma série incrível. Atores com muita sincronia, fazendo personagens que conquistaram o público (mesmo sendo tão chatos quanto o Jack ou a Kate); enredo marcante, como há muito não se via; trilha sonora impressionante. O conjunto da obra é memorável.

12h41. Como já era de se esperar, continuo cheia de dúvidas. Todo mundo já sabia que poucas coisas seriam esclarecidas na última temporada. Mas não me importo muito com isso. Lost não foi uma série feita para ser assistida e dizer “amém” no final. Foi feita para ser questionada a cada novo capítulo. Aceitação e conformismo não tem o menor espaço, e é isso que faz a série ser tão original e querida. Esse foi um dos poucos programas de TV que colocou o público para pensar, por mais mirabolantes que fossem esses pensamentos. E vamos sentir falta, sim. Flash Forward foi cancelada, e era a série que tinha uma remota chance de chegar perto do cambalacho que Lost criou. E agora, mundo? Continuaremos perdidos…

*Eu sabia que dava para confiar no Bem. Não gostava dele por nada.

*Até cheguei a gostar do Jack em dado momento (o que é um milagre).

Por Natsim, ela tem dois blogs incríveis: Caleidoscópio Dental e In Shuffle We Trust. Visitem!

Pescoção

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Hoje temos o prazer de contar com a participação de Charlie e seu envolvente mau-humor em um post escrito especialmente ao Palavra – e às Palavretes, of course. Enjoy it!


Acordei pensando em pescoções…

Não! Não pensei sobre a origem do termo – até porque se ninguém tiver teoria melhor, fico com a versão de que quem inventou foi o meu tio Bernardo.

Para ser sincero, acordei com o princípio de uma lista mental de pessoas que, em minha singela opinião, mereceriam um master pescoção.

Quando, já a caminho do trabalho, a lista ultrapassou a centena, achei melhor respirar e me acalmar (na verdade tomei essa decisão quando percebi que já estava sorrindo involuntariamente, enquanto planejava uma vida dedicada à criação de uma nova ordem, baseada na punição física com golpes comicamente batizados como pescoção e safanão).

Quer uma explicação para o surto psicótico? Bom, acho que além do meu recente-constante-mau-humor (to numa fase, que pqp!), o estopim foi a constatação de como as pessoas perdem tempo cuidando da vida alheia (principalmente quando a vida alheia é MINHA).

Tá bom, vai… Não vou dizer que nunca dediquei um pouquinho do meu tempo a ouvir novidades e maledicências em geral. PORRA!!!  Já dediquei muito. Mas quando você percebe a energia que algumas pessoas dispensam para saber o detalhe… para esmiuçar uma história, como se daquilo dependesse a sobrevivência da nossa espécie… nossa… É de enlouquecer.

Parece exagero?

Não se você pensar em verdadeiros monumentos à espionagem internacional, que encontramos hoje em dia. Difícil? Aposto que, se puxar pela memória, vai descobrir pessoas muito próximas de você que (tá bom, vai: nem sempre motivadas por objetivos malignos), fazem verdadeiras varreduras por Orkuts, Facebooks e afins. Coisa profissional, estilo KGB, manja?

Isso é o que me incomoda, sabe? Afinal, o que importa se aquela mulher do almoxarifado, que deve ter pelo menos uns 45 anos de empresa, está namorando um jovenzinho e frequentando, com ele e uns amigos, uma loja de itens sado e uma casa de swing? Vai mudar alguma coisa na sua vida?

Então…

Infelizmente, hoje em dia, a figura do fofoqueiro não é mais a senhora com de cara de nonna que fica na janela, nem o cara de meia idade, com cabelo acaju, que fala sobre o próximo capítulo da novela e a vida das celebridades. É triste, mas hoje, antenas e paraquedas vêm de série…

Então… Fica aqui o conselho:

Se você, por algum motivo, não consegue respeitar a vida alheia, repeite os cabelos brancos de meu tio Bernardo. O primeiro pescoção será só um aviso.

Por Charlie

Eu idealizo, tu idealizas, ela idealiza

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“Sonho é uma coisa super comum, a gente tem desejos, vontades, quer correr atrás, muitas vezes consegue, muitas vezes não, aí a gente cresce, muda de sonho e começa tudo de novo, isso mesmo, como em um ciclo vicioso”.

G. tem 18 anos recém-completados e ingressou em uma das faculdades federais mais concorridas do País. Mas não é a esse sonho que ela se refere na carta que me enviou.

“O dia mais esperado há tempos, finalmente havia chegado. O show começou e eu não acreditava que meu sonho estava tão perto, porém tão distante ao mesmo tempo. Você pode acreditar, eu como super-ultra-megablaster-plus-advanced-máster fã, não chorei durante o show. O show acabou, saíram do palco, aquela conversa baixinha foi aumentando e então percebi que não havia mais nada. Ninguém no palco, nada de guitarras tocando, nada do som da bateria, nada de baixo. Então eu me sentei no chão e chorei, chorei tudo o que eu havia guardado dentro de mim”.

G. era uma daquelas milhares de meninas, muitas ainda crianças, que choravam, me imploravam por um gole d’água e eram retiradas pelos seguranças passando mal, esmagando-se umas às outras. O que as reuniam naquela noite? O show do McFly, uma das boy bands do momento.

G. é a representação perfeita da necessidade humana de idealizar. Quem nunca idolatrou aquele gatinho pop star-celebridade-modelo-ator? Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em chegar perto de Brad e Tom. E se não fosse essa nossa capacidade de iconização, o reinado dos garotos populares nos colégios chegaria ao fim.

Encontramos casos parecidos com o de G. na religião. Fanáticos que entregam 10% da renda mensal para ajudar na manutenção da Casa do Senhor e seguem à risca os mandamentos de suas Igrejas, não se entregam aos prazeres da carne e ainda acham que comer um chocolate sem ter fome significa o pecado da gula. A única diferença, nesse caso, é que o ídolo não é mais McFly. É o “Pai nosso que estais no céu”.

A edição de maio da revista Super Interessante publicou o resultado de pesquisa do Instituto de Saúde dos EUA (NIH) que confirma que nossos cérebros já nascem predispostos a acreditar em Deus. Quando as pessoas pensam em Deus, de acordo com o NIH, ativam os mesmos neurônios que possibilitam a capacidade de entender o que outras pessoas estão sentindo e simpatizar com elas. Com a criação de sociedades mais complexas, quem tinha o cérebro mais crente se sobressaía: acreditava em mitos e era mais sociável. Hoje, mesmo com o avanço da ciência, a crença no sobrenatural ainda é mais do que comum.

O fato é que precisamos acreditar, sonhar, idealizar, iconizar. Precisamos criar expectativas, esperar que algo seja perfeito, do jeitinho que imaginamos, a garantia de uma luz no fim do túnel. A palavra é… PRECISAMOS. Afinal, a vida seria vazia sem isso. Vai dizer que sua vida teria graça sem sonhos e expectativas? Sem ter algo a que se apegar, seja o McFly, Deus, aquela linda viagem ou o emprego perfeito?

Mas toda cautela é pouca. Com tanta idealização, é fácil, fácil quebrar a cara. E até a G. sabe disso. “A questão é que eu aprendi que chorar não resolve problemas, e que esperar o Danny Jones cair do céu para casar comigo é pura ilusão”.

Ah se a G. soubesse que Danny Jones é baixinho, tem cabelo seboso, cobre as espinhas com pó compacto e tem dentes amarelados…

 

Por Aline Shiromaru, convidada especial do Palavra Final.