Experiência (zoo)antropológica

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Andar de metrô e trem em São Paulo é, sem dúvida, uma experiência antropológica riquíssima. Afinal, é uma análise in loco com mais de 4 milhões de pessoas como amostra, que circulam diariamente entre corredores, escadas e vagões do transporte público na cidade de São Paulo. E com certeza, por mais que resmunguemos quase 100% das vezes que estamos passando por esses momentos, não temos como negar que aprendemos muito com eles.

Sempre fico pensando o quão zoológica essa experiência antropológica é. Quais seriam as principais diferenças se ao invés de pessoas fossem macacos ou cachorros percorrendo esses trajetos e tendo que repeti-los todos os dias? Temo que não muitas.

Talvez, com um esquema de choque ou bonificação com uma banana ou ossinho, os macacos e cachorros não demorariam mais que sete dias para aprender que é mais efetivo esperar as pessoas saírem dos trens antes de entrar. Nós, humanos, não compreendemos isso. Quando a porta abre, saímos empurrando os outros, pisoteando quem estiver na frente, sem pensar que talvez, se entrarmos quando o vagão já estiver vazio, evitaremos um cansaço geral. Mas não. Precisamos de homens uniformizados com cara de mau (mesmo que no fundo dos olhos se note um tremendo desgosto) montando esquemas de retenção de pessoas para forçar-nos a ser educados e sensatos. Os macacos sentiriam vergonha alheia.

Sobre músicas “inouvíveis” escapando dos fones de ouvido das mais diversas vertentes musicais por aí, nem comento. Qual é a dificuldade de entender que o fone de ouvido foi justamente criado para você poder ouvir a música que bem quiser ENQUANTO os outros ouvem as suas OU optam por não ouvir NADA? Será que os animais têm códigos mais claros para respeitar o sossego silêncio alheio?

Casais que se pegam loucamente, pessoas que discutem n assuntos gritando em alto tom no celular, homens que aproveitam para paquerar nos vagões, pessoas bêbadas, jovens que ocupam os lugares reservados, por lei, aos velhinhos, grávidas e qualquer um que realmente necessite sentar. O apego exacerbado às escadas rolantes e elevadores. Empurra-empurra, desrespeito, vandalismo e violência. Coisas dispensáveis, concordam? Não nas jaulas nos vagões.

Não to dizendo aqui que todos que andam de metrô e trem são mal educados, ignorantes, animalescos e que não se comportam, apenas reagem a instintos, e que só eu sou a cidadã exemplar. Até porque não sou e tenho plena consciência disso. Claro que existem muitas, muitas, muitas pessoas mesmo que compartilham do bom-senso geral e da educação ideal no transporte público desta magnífica cidade.

Assim como já me irritei inúmeras vezes, também já me deparei com um olhar amigável, com uma pessoa que se oferece pra ajudar a carregar a mala ao descer as escadas, com alguém que se levanta para a senhora sentar ou com um gesto de gentileza e cortesia na entrada ou saída do trem. Afinal, é praticamente uma Irlanda inteira (4,5 milhões de habitantes) se encontrando e tendo que dividir espaço, tempo e paciência todos os dias nos arredores dos trilhos do Metro e da CPTM.

Pessoas vêm e vão com muitos compromissos ou muito pouco deles, com preocupações, problemas, anseios e expectativas. A vida está acontecendo e seja o que for, aconteça o que acontecer com todo mundo que tá ali, não há escolha. Temos que carregar, além do guarda-chuva, o bom humor, a alegria, a tristeza e a dor com a gente pra dentro dos vagões e nos agarrar bem forte às barras de ferro pra não cair com os supetões da vida do trem.

Por May.

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  1. uff!!! senti na pele como era!!! É curioso como esse comportamento é exclusivo dos humanos em qualquer parte do mundo. Mas quando acontece alguma coisa “fora do normal”, uma gentileza, a gente quase esquece do resto, né? E como faz diferença nessa vida de idas e vindas…

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