Ejemplos

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Essa foi uma daquelas experiências pela qual você não espera passar simplesmente porque nunca pensou no assunto. A história é bastante conhecida, já foi retratada em filme e seus sobreviventes foram personagens de documentários e escreveram livros sobre o acontecido. O fato: o acidente aéreo na Cordilheira dos Andes, em 1972, em que 16 pessoas que estavam no avião sobreviveram após 72 dias entre as montanhas.

Como todas as tragédias, esta também já foi contada diversas vezes, sempre com um sensacionalismo que me faz evitar conhecer a fundo tais histórias. E sim, essa é bem aquela em que os caras tiveram que recorrer à antropofagia para continuarem vivos. Daí, que eu tive a oportunidade de ouvir a história completa diretamente da boca de um desses caras: Ramón Sabella.

A princípio, minha expectativa era de ouvir uma história de superação e talvez até com uma pitada de drama excessivo. E aí que eu fui surpreendida! Sim, tudo que aconteceu nesse episódio é realmente forte e dramático, mas ouvi-la pelas palavras de quem a vivenciou e tirou dela uma motivação para seguir em frente foi uma experiência surreal.

Primeiro porque o Ramón tem um cuidado especial no uso das palavras pra contar sua visão de tudo. Segundo, porque em momento algum ele se coloca como vítima de uma tragédia (pelo contrário, ele compartilha tudo que aprendeu de valor com a experiência) e, terceiro – e mais importante –, porque eu simplesmente estava tendo a oportunidade de conhecer a história através de quem a fez acontecer, sem intermediários! Cara, por um instante eu me senti a pessoa mais sortuda do mundo!

Pra quem se ter uma ideia do que isso significa, o fato de o grupo ter se alimentado de carne humana para sobreviver é tratado por ele como “uma necessidade de obter proteína para se manter vivo”. Essa sensibilidade ímpar pode ser sentida durante uma hora e meia em que ele relata os fatos e seu aprendizado a partir de cada dia. A genialidade da palestra do Ramón está em abordar o óbvio sob um ponto de vista diferente – neste caso, as condições extremas e os (quase) encontros com a morte.

Daí, ele fala que percebeu lá nas Cordilheiras que ele, e apenas ele, é responsável pelo seu destino. Coisa óbvia, não? Mas que ele só se deu conta disso quando ouviu no rádio que as buscas pelo avião haviam sido encerradas. O destino daquele grupo, disse Ramón, já estava traçado: eles iriam morrer ali. E a partir daí, perceberam que deveriam agir, buscando uma forma de sair das montanhas.

E para cada acontecimento, uma lição tirada: avalanches, frio, fome, sede… Tudo isso relatado de forma realista, mas sem explorar a dor. E ele continua a tratar de coisas óbvias como a adversidade e aceitação da realidade como fatores motivadores para mudar o próprio destino, o valor do grupo, a atitude positiva como determinante entre aqueles que sobreviveram e os que ficaram nas montanhas…

Numa época em que ser vítima, contar histórias tristes e compartilhar tragédias está cada vez mais em alta, e os valores sociais andam bastante distorcidos, poder ouvir essa história e a postura desse cara foi um respiro e tanto.

Por Carrô.

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