Inquestionável Incredible Índia*

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Existem aquelas experiências que você só pode dizer que sabe como é se realmente já viveu, como a perda de mãe ou pai antes da hora, um acidente feio ou uma doença em que sobreviva, ganhar na loteria, ter um filho e ir à Índia.

Como eu só vivi 25 anos, ainda não tive tempo nem a sorte de passar pelas coisas inexplicavelmente boas que podem acontecer, mas também não tive o azar de ter um machucado tão grande na minha trajetória até agora. Mas ir à Índia eu já fui! E, por coincidência, hoje que tive vontade de escrever um texto sobre isso, faz exato um mês que voltei de lá.

A verdade é que desde que minha irmã foi morar na Índia, eu ouço muitas histórias, percepções e reclamações sobre aquele lugar que carrega um peso nas costas que eu ainda não consegui entender. Cada dia que passa penso um pouquinho sobre os dias e as noites em território indiano e os sentimentos se alternam entre amor, respeito, raiva, admiração e asco. Parece meio contraditório, não? Mas a Índia, mais que tudo que possa ser, é contradição.

Não falarei aqui de acontecimentos pontuais até porque eu seria incapaz de resumir 15 dias em alguns parágrafos e nem acho justo. Mas eu ainda sinto um pouquinho de falta de ar quando penso naquilo tudo que vivi, que foi potencializado pela companhia de minhas irmãs e mãe, e até hoje não me sinto suficientemente segura para fazer qualquer julgamento sobre o mundo indiano, as pessoas, os costumes, a fé, as condições de vida e a cultura.

Assim como via as paisagens e as cenas que me chocavam e me deixavam boquiaberta lá, escrever este post me está fazendo ver a tela do computador por trás de um véu que hoje é uma lágrima, mas lá era poeira. Cada frase a mais que coloco aqui me faz sentir os cheiros que lá não tinha como fugir: curry, suor, flores, cocô, xixi, incenso. Lembrar de todas as vezes em que os indianos tentaram e a vez em específico que conseguiram nos dar algum tipo de golpe faz meu coração bater mais forte e eu passo a odiá-los por terem colocado as pessoas que mais amo em perigo e em exposição daquele jeito. Rever as fotos dos rituais religiosos em Varanasi, às margens do Ganges, me traz de volta um sentimento que nunca tinha tido antes, de respeito pela fé que os nossos olhos ocidentais resistem e hesitam em admirar.

Meu estômago embrulha de lembrar daquelas comidas que me obrigaram a comer batatinhas industrializadas todos os dias. Meu buço começa a suar quando tento não sentir o calor abafado e seco de lá. Um mormaço que te deixa cansada de viver. E meu ar, não tem jeito, me escapa quando fecho os olhos e imagino que estou diante de uma das coisas mais impressionantes que já vi na vida: Taj Mahal. É incontrolável não dar um sorriso mesmo que de nervosismo quando lembro dos indianos nos perseguindo pra tirar foto de ou com a gente. Ou das olhadas tão profundas e carregadas de um sentimento que nunca quero realmente desvendar que nos abraçavam quando passávamos pelas ruas. O instinto de questionamento e indignação que te fazem levantar da cadeira e mover amplamente os braços é inevitável ao comentar a corrupção e sujeira.

Acho que já deu pra perceber que não tenho muito bem organizadas minhas lembranças da Índia e acho que demorarei um tempo ainda para digeri-las. Talvez isso aconteça paralelamente ao meu amadurecimento como ser humano. Inclusive, não estou tranqüila como gostaria pra postar este texto… sabe aquela sensação de que a foto não mostra o que realmente se viu? Então. A Índia, meus caros, é um tapa na cara com um soco na boca do estômago. E não importa o quão preparado você acha que está, ela vai rir da sua cara e da sua pequenez ocidental.

Acho que o mais foda da Índia é que ela finca marcas em você que te deixam paralisada (assim como eu fiquei agora) ao tentar explicar aos outros seja lá o que acredite que tenha que ser explicado. A Índia é só sentimentos e sentimentos não se explicam, se sentem. E eu sinto que devo, de alguma maneira, algo de mim ao que vivi lá.

Mundo Índia: hay que vivirlo desnudo . Varanasi


Por May.

* Incredible Índia

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  1. caramba, may. foi isso que eu senti vendo as fotos. é tudo lindo no sentido de ser tão rico e novo que, por foto e por cada episodio contado, dá pra sentir o que vc quer dizer com tudo isso, sem nem precisar explicar muito!
    acho que é o tipo de experiência que faz a gente se sentir pequeno e ao mesmo tempo tão grande por ter a oportunidade de passar por isso…que mexe tanto com a nossa indivualidade que passa por cima dela, extravasa…e muda o nosso entorno. :)
    pode ter certeza de que essas marcas aí já nem são só suas…ok, a das unhas ainda são! hahaha
    lindo texto, mana.
    beijo!

  2. Lindo post e incrível experiência, Max!
    Quero poder estar por perto ao longo desta “digestão” para conhecer mais e mais histórias desta viagem incrível!
    Bjs!

  3. Lindo, May! Primeiro de tudo, saudades dos teus textos. Segundo: a Índia deve ser um lugar impressionante, positiva ou negativamente. Sempre quis visitar, mas acho que isso vai demorar pra se concretizar, já que não me sinto espiritualmente preparada pra encarar essa jornada, mais contraditória do que senti ao ler seu texto.
    Certeza que é uma experiência inesquecível, e que os frutos que você colherá disso serão incríveis!
    Lindíssimo texto. Beijo, queridona!

  4. Mayra, conversando com a Bianca sobre a viagem ela estava com o mesmo estado de espirito que vc muito bem conseguiu traduzir nesse post .
    Parabens, vc conseguiu colocar toda a complexidade da sua experiencia , todos os extremos vivenciados ao mesmo tempo , de uma forma muito interessante…

    • Mayra
      As suas fotos conseguem passar a realidade do momento e da paisagem….
      e o seu Post complementa e esclarece todo um sentimento de surpresa de
      uma cultura tão difícil de entender……Parabens…..bjs

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