Lá em casa

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Por 19 anos da minha vida, eu tive uma referência de casa. Aquele apartamento no segundo andar, com quarto dividido com a irmã mais velha, ora com cachorro, agora sem, a um andar da tia, a dois da avó. Com direito a irmão pra legitimar a bagunça e a pai e mãe pra botar ordem na casa.

Lá em casa, eu reconheço todos os sons, sei que horas o vizinho chega pelo barulho da porta, conheço zelador, porteiro, a mulher da banca de jornal, o dono da adega e o cara do jogo do bicho da esquina (obrigada, Vó!). Vi quase duas décadas de transformação do bairro e todos os meus coleguinhas de condomínio crescerem – inclusive o primeiro namorado, que (ah vá) mora por lá também.

Lá em casa, a gente janta toda noite, o telefone toca o dia inteiro (e a noite também), todo sábado é dia de supermercado e todo domingo parece uma festa – chega o tio com um frango assado, o outro com a garrafa de vinho e quando me dei conta, a população da casa dobra sem o esforço mínimo de convidar qualquer pessoa para o almoço.

Lá em casa, eu deixei uma cama vazia, um guarda-roupa com algumas coisas, um pai e uma mãe com o coração na mão, um irmão feliz da vida que ganhou uma base mais central pra dormir nas noites de balada e uma irmã com um quarto só dela – finalmente! É que eu já não moro mais lá. Eu agora moro aqui, no apê. Lugar escolhido por mim e pelo Jor para viver. Eu tenho ouvido muito a pergunta “saiu por quê?” e só consigo responder: porque chegou a hora. Não sei explicar de outra forma, nem tenho outro motivo tão verdadeiro quanto esse. Hora de me colocar em teste, de errar, de crescer, de amadurecer.

Aqui no apê, eu estranho tudo. O barulho da rua, os vizinhos, os números dos ônibus que me levam pros lugares, a bagunça que fica quando eu mesma não arrumo, a falta do jantar, as lojas diferentes… Mas a graça da brincadeira está em ir descobrindo cada coisa ao seu tempo. Já sei que elevador faz barulho durante a noite (lá em casa, o prédio não tem elevador). Aprendi também que o 856R-10 me leva e traz do trabalho e que o 7272-Praça Ramos é o ônibus que tenho que pegar pra chegar ao Mackenzie. E ainda terei tempo pra conhecer muito mais!

Lá em casa, eles estão se acostumando com a minha ausência. E eu com a deles aqui. Lá em casa, é onde meu coração está, e muitas das minhas referências também. Com eles lá de casa, eu quero compartilhar o último parágrafo de uma crônica que parece escrita pra mim e para todos os filhos que saíram de casa pelo Affonso Romano de Sant’Anna, intitulada Quando as filhas mudam.

Os filhos crescem. E os pais também. Essa separação não é perda, é desdobramento. Como as árvores que necessitam de distância para poder expandir seus galhos sem se engalfinhar num emaranhado de ramos e raízes que acabam enfraquecendo-se mutuamente, filhos necessitam se afastar para ter a real dimensão de si mesmos e de seus pais. E à distância, paradoxalmente, podem acabar se sentindo mais ligados e amados do que nunca. São ciclos da vida. E cada ciclo deve ser vivido intensamente. As mudanças, embora difíceis, quando assumidas sadiamente, são um momento de enriquecimento da vida.

Por Carrô.

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  1. Carol, vc conseguiu dizer o que eu sempre senti. E ok, Affonso Romano de Sant’Anna também ajudou bastante. E te digo: por mais tempo que passe, tudo isso continua igual. E não importa o quão longe vc more dos seus pais, o sentimento é o mesmo também. Moro longe dos meus pais há anos, antes estava longe, agora, então… nem se fala. E tudo que sinto é isso aí que vc escreveu! Boa sorte nessa nova fase. Ela é dura, mas muito ‘recompensadora’! :)

  2. Me emocionei, catzinha! :ó)
    Passei por isso anos atrás e sei exatamente o que você sente,pensa,fala,escreve….
    Faz 06 anos já que saí de casa e ainda sinto falta deles, da casa, do quarto antigo que nem existe mais, dos momentos juntos que só depois que a gente “separa”, a gente percebe como eram fundamentais…
    Vai ser uma jornada interessante e enriquecedora, aproveite! E sim, pode ter certeza que o amor e o carinho que vocês tem um pelo outro aumenta proporcionalmente à saudade que bate…olha só que coisa mais gostosa! :)

    Beijos, força e juízo (pensa numa Carolzinha morando sozinha…ai ai ai hhahahaha)

    p.s. (e quando eu vou conhecer o ape novo?)

  3. e quando me dei conta…chorei! rs
    pode isso, arnaldo?
    que orgulho, baby!!! confesso que queria estar por aí pro open-house e comemorações/encontros sem propósitos posteriores…rs

    coisa melhor do mundo é escolher, né? :)

  4. Devo dizer que não cabe orgulho maior! Daquela menina que quando conheci pensei ter 13 anos quando tinha 18! rs Me refiro a aparência (sinta-se elogiada! Depois dos 18 sabemos que isso é mais que um elogio!)!!! Quero conhecer seu cantinho, assim como você esteve no meu há uns 4 anos atrás, dividiu minhas saudades, angústias, alegrias e principalmente domingos de manhã depois de uma boa noitada! Quero dividir com você tudo isso, principalmente porque você apesar do tempo e da distância nunca deixou de ser “FAMÍLIA”, e nem me deixou na mão. E como alguém “buda” a descreveu: você é a minha “amiga mais sensata” e devo reconhecer que vc é esta pessoa. Sinto falta de você grande Carol, e vamos estreitar estes laços! beijo e força na peruca!

  5. Carol,
    Que lindo…!
    Só agora tô conseguindo colocar a leitura dos posts do Palavra em dia.
    Boa sorte nessa nova fase! Estou do seu lado sempre que precisar, chica.

    Beijo,

    Line

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