Ssshhh(?)

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Eu amo o silêncio. Por isso valorizo meus protetores auriculares a ponto de – veja a contradição – gritar para perguntar onde eles estão. No trabalho, fico o dia inteiro com o fone no ouvido porque amo música, mas amo mais o isolamento que ele me proporciona de todos os papos chatos que rolam pelos corredores do escritório. E, pior, que acontecem sempre às minhas costas (literalmente, porque sento de costas pros tais corredores).

Acontece que só gosto do silêncio quando eu escolho ouvi-lo. Como daquela vez em que – numa ousadia rara – subi com a Carrô e a Sis quase mil metros de altura por uma trilha para chegar ao topo da Pedra do Baú. Apesar do vento forte (e da chuva congelante) judiando de mim, poucos silêncios foram tão bons quanto o que ouvi naquele lugar. Era o meu silêncio. Teve também aquele que, diante de milhões de anos materializados em geleira na Patagônia, quase no fim do mundo, só era interrompido por vontade da natureza, que nem precisava pedir a atenção de ninguém pra ser ouvida.

O chato é quando eu espero que o vento sussurre no meu ouvido, ou quero me sentir no meio da bagunça da Lapa carioca até entrar no mesmo buraco lugar da noite anterior ou simplesmente retomar aquela conversa animada de mesa de bar sobre a vida, o universo e tudo mais… mas só o que ouço são os irritantes grilinhos que não têm nada a me dizer.

Cri-cri.

Cri-cri.

A bola de feno rooooola quando, na real, esse lugar nem é pequeno demais e eu adoraria estar de novo com uma Heineken trincando na minha mão, imaginando por que raios eu ainda não tenho um twitter.

É chato porque não é o silêncio de um abraço, quando você acha que vai explodir de tanto que gostaria de falar, mas não sabe por onde começar. O silêncio de uma despedida ou de uma chegada ou aquele de fim de qualquer coisa… de um jogo que seu time perdeu, de um relacionamento que terminou, da bronca que você acabou de levar. Enfim, aquele que você não quer manifestar em som porque simplesmente… não precisa.

O celular não funcionou? O filtro de SPAM do e-mail é retardado? A programação não era suficientemente atrativa? Ou o silêncio representa exatamente o que a situação toda significa e isto é nada?

Eu já falei demais nessa vida. Mas também já falei muito de menos. Mais de menos do que de mais, aliás. E isso nem sempre me levou a boas conclusões, a bons finais… a bons silêncios.

E, do silêncio musical que estou ouvindo enquanto escrevo esse post, a única frase que eu absorvi da música que está tocando foi: “I’ll just keep it to myself“. Sério. Que ironia! Falta saber se é mesmo pra eu manter comigo ou se preciso de mais sinais de que, se só eu ouvir o que tenho a dizer, este será mais um silêncio na minha coleção.

Por Má-Má.

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  1. ai se não fosse vc pra quebrar o silêncio deste blog – que tanto tempo perdura.
    veja que coisa, né?! que coincidência! quebrar o silêncio falando dele mesmo.
    super me reconheço neste texto. achei muito delicado pra falar de coisas tão complexas, né. rs
    mas vc sabe que uma das coisas que eu mais admiro nas pessoas é quem sabe quebrar o silêncio sem parecer barulho, nem intromissão.
    quem sabe um dia chego lá!
    beijos, chica.

  2. Bom pra cara***. Dá vontade mesmo de falar muito e comentar tudo isso com pitadas de pensamentos. Mas fico tão convencido com esse texto, que acho que a melhor coisa para homenagea-lo é, no mínimo, deixar o meu silêncio falar por mim também.

    Um beijos e muitos shhhhhsss afora.

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