No coletivo

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A coletividade. Foi esse sentimento que chacoalhou a sociedade e provocou uma grande revolução lá nos anos 60, quando surgiram os primeiros embaixadores da paz, do amor e, claro, da coletividade. É. Estou tentando fazer referência aos hippies, mas isso não importa, porque não é sobre eles que falarei nesse post.

Se a coletividade na década de 60 para mim está representada na psicodelia, no flower power, nas barbas e cabelos longos…bem… hoje ela tomou uma forma, digamos, menos orgânica e poética. Para mim, hoje, ela é bem retangular, pequena, de material sintético derivado de petróleo (aqui estou tentando fazer referência ao plástico), que carrega o meu direito de ir e vir por esse malandro que continua me maltratando (e, nas horas vagas, me dando ainda mais alegrias): o meu bilhete único.

.o passaporte para encarar o trânsito e a vida em sociedade.

É na coletividade do ônibus, metrô e ponte ORCA que a cada dia eu descubro mais sobre mim e sobre as outras pessoas e por que eu gostaria tanto de ter o super-poder do teletransporte. Mas para usá-lo só nos casos bem críticos. Porque, em um mês de volta à coletividade, muita coisa aconteceu. Eu vi um casal assistindo ao pôr-do-sol na escada da estação Hebraica-Rebouças, quando a poluição tingiu o céu de vermelho e a água do rio Pinheiros, de tão turva, não conseguiu refletir a tal luz. E achei bonito. Descobri que a ciclovia da Marginal começa bonita e termina mais ou menos. Que Bob Dylan é judeu e seu sobrenome é Zimmermann; que ele é estranho e portanto eu posso facilmente declarar meu amor por ele. E que “Like a Rolling Stone” é uma nova canção cada vez que eu a ouço, que é a melhor vingança pra quem um dia vaiou Bob, e até hoje é um tapa na cara do mundo, que poderia ter tomado um rumo bem diferente desde ela foi lançada, em 1965.

Ah! E também que as pessoas, sim, utilizam o super-poder da elasticidade para “girafar” a sua revista (e sem parcimônia). E não hesitam em te cutucar para perguntar que publicação é aquela e se você sabe se ela ainda está nas bancas. Também descobri que o número de pessoas que andam com fone no ouvido aumentou… e muito. E parece que só eu ainda não tenho um iPod. E que o fone virou desculpa para o AppleLover não perceber que esbarrou em você, afinal, estava distraído. Ok. Tá desculpado, em respeito a Steve Jobs!

Também (re)descobri que dou preferência ao banco alto e à janela, e que as pessoas que carregam mochilas ou sacolas sempre esperam que você – quando está sentado, claro – se ofereça para segurá-las. E que eu já tenho uma coleção de sorrisos de desconhecidos por causa disso.

E que o tempo passa rápido, mas o ônibus, bem devagar. Suficientemente devagar para pensar em todas as formas de ser uma pessoa mais legal pra coletividade, ainda que eu seja interrompida por “desculpa, moça. Mas… que revista é essa falando do Chico Xavier”?. Quero só ver quando perceberem que o Guia do Mochileiro das Galáxias caiu na minha mão…

Por Má-Má.

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  1. aposto que essa publicação a q vc se refere é a nossa queridíssima SUPER. só nesta edição, duas pessoas já me perguntaram. e uma delas continuou lendo a matéria comigo a ponto de eu QUASE perguntar se já podia virar a página.
    vc foi elegante neste post pq vamos combinar que existem muito mais coisas desagradáveis nessa tal da coletividade aí do que imagina nossa vã filosofia.
    o melhor (ou pior) é que já nos acostumamos com elas.

  2. E viva o Bilhete Único! “Seu ladrão, pode levar tudo, mas deixa meu bilhete único, porque é um saco pra fazer o de estudante depois” (atire a primeira pedra quem nunca falou isso!)

  3. Eu tenho uma relação de amor e ódio com o coletivo.
    Isso pode parecer engraçado, mas um dia desses percebi que dou um sorriso sempre me escapa quando vejo aquele letreiro indicando o meu destino… Bonitinho, né? Exceto pelo fato deste riso ir embora rapidinho quando aquele abraço suado e apertado me envolve ao som de um funk que insiste em saltar de um celular no fundo do busão.
    Acho que posso dizer que também sou um personagem fácil da coletividade… Não por ficar pescoçando a leitura alheia… Na verdade sou aquele cara que olha o dono do tal celular fixamente por alguns segundos, concentrando as ondas cerebrais na desintegração daquele aparelho que SIM deve ser usado com fone.

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