Banco sim. Banco não.

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Há alguns anos, aceitei o desafio de uma sessão de cinema tripla com a única pessoa que (1) me faria este convite e (2) aceitaria o convite se eu o fizesse. No mesmo dia, eu e um amigo, um daqueles de quem se perde o contato, mas não o carinho, assistimos juntos a: “Meu tio matou um cara”, “Dança comigo?” e “Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”. E em todas as sessões, além da presença da pipoca, um fato redundante chamou nossa atenção. Por que raios as pessoas evitam sentar perto uma das outras no cinema?

Entre estes três filmes, o terceiro estava concorridíssimo e, ao entrarmos na sala correndo, foi difícil encontrar um parzinho de cadeiras vazias. O mais comum mesmo era um par ocupado e uma vazia; três ocupadas e uma vazia; e isso seguia assim até o fim da fileira, com um intervalo entre as pessoas que se conheciam e aquelas com quem ninguém queria dividir o encosto de braço. Demorou pra um casal pular uma cadeira pro lado e eu e meu amigo conseguirmos sentar juntos, ansiosos pelo combo de pipoca lotado de manteiga e a coca-cola de 700ml. Ao sentarmos, a pergunta que não queria calar: Por que fazemos isso?

Digo na primeira pessoa no plural porque me incluo neste grupo. É comum eu pular uma cadeira no cinema; e mais comum ainda eu ter que levantar. Não é por mal. Mesmo. Não acho que vou pegar uma doença contagiosa, nem que vou levar choque se eu encostar no cotovelo de alguém (porque isso acontece com freqüência), nem que… sei lá. E, depois de anos acumulando milhas em salas pela cidade, percebi uma coisa: não sento ao lado das pessoas no cinema porque não quero incomodá-las. É não é porque estou pensando nelas. É porque eu me sinto bem não incomodando as pessoas. Egoísta assim mesmo. E só cheguei a essa conclusão porque me dei conta do quanto fico irritada quando me incomodam!

 Há umas duas semanas, fui assistir a um filme que já ocupa uma posição nos Top 10: “Soul Kitchen”, uma produção alemã com um senso de humor que, honestamente, eu achei que nenhum alemão pudesse ter e da qual eu nunca tinha ouvido falar. Sentei ao lado de uma senhora que parecia não ter lido o Guia da Semana também, como eu pude perceber logo na primeira cena. A cada palavra do personagem principal (um grego que vive em Hamburgo e que tem a pior maré de sorte do mundo), a senhora bufava, soltava um tsc, repetia a última palavra falada em alemão ou – pior – lia a legenda antes e conseguia falar ao mesmo tempo! Isso não é muito irritante?

.muito mais que "tsc. buffff. há. até parece".

 Daí pairou a dúvida: esse tipo de gente sabe que manifesta os piores sentimentos em pessoas que sequer a conhecem? Alguma coisa boa – além do saco de pipoca que ela conseguiu comprar e eu não – aquela senhora deveria ter. Mas eu prefiro nem saber. E o pior é que desta vez, a culpada fui eu. Porque quis socializar e não pulei uma cadeira ao lado dela para dar lugar a um casal que logo sentou junto. E o que eu ganhei em troca? Nada. Sequer consegui apoiar meu cotovelo no descanso de braço, que a senhora dominou durante a sessão inteira. E, então, no fim da sessão, eu que bufei e atirei um tsc na cara dela. E o melhor é que não me senti nem um pouco mal com isso. É. Egoísta assim mesmo!

Por Má-Má.

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  1. Antes fosse só no cinema. No ônibus, na sala de espera, no metrô… A gente sempre pula um lugarzinho quando dá, né?

    (Momento “leitora chata”: a May saiu de férias do trabalho e todo mundo acompanha aqui no blog? Saudades dos textos do Palavra!)

  2. ai, demais mesmo! adorei! hahaha
    é como a nat disse: qdo entro no busão e, milagrosamente, ele está vazio. pode reparar: todos sentados sozinhos nas duplinhas de assentos. e aí vai pela razão de cada um. hahaha seja ela não incomodar ou não ser incomodado. o fato é que todos nós gostamos de espaço.

    ah! e estou de volta ao trabalho. não tinha mta escolha… rsrs
    e logo menos voltarei ao Palavra tb com texto novo! :)

  3. É menina Ma-Ma…
    Também sou do tipo que tenta dar chances para a humanidade e depois fica se perguntando “Pq, Deus? Pq?”.

    Sabe? Acho que é por isso que nos afastamos uns dos outros muitas vezes… Para que não tenhamos algum tipo de crise imaginando que podemos ser tão irritantes quanto os que nos aborrecem …

    Sabe uma coisa que eu simplesmente não suporto? Aquele cara que leu as milhões de (fucking) criticas, e quer contar “os motivos” do maldito filme… ou então aquele cara que já viu o tal filme e manda um “Olha essa cena agora… olha o que vai acontecer”…

    Conhece o tipo? É aquele cara pra quem vc quer dizer “PORRA!!! FAÇA UMA PALESTRA DEPOIS DO FILME, GODAMNIT!”…

    Então…

    Percebi que, muitas vezes, SOU este tipo de cara… e acho que é exatamente por isso que eu detesto… (não conta pra ninguém, ok?)

    Adorei o post..
    Beijo

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