São Paulo é o meu malandro

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Nunca fui do tipo que se apaixona fácil, fica com a cabeça nas nuvens ou se esquece de quem é para ser mais o outro do que si mesmo. Nunca agüentei desaforo em relacionamentos (ok, até soar o alarme da minha dignidade, claro. Porque um desaforozinho aqui e ali eu já levei pra casa, sim. E coitado do pobre que discutiu a relação no dia seguinte). Enfim, nada disso acontece com pessoas. Porque, hoje, a questão aqui não é falar das mazelas do relacionamento “homem x mulher” ou “você-é-um-homem-ou-um-rato? x mulher” (se bem que, Oh, God!, como esse tema rende assunto). A questão aqui é falar de um relacionamento duradouro, quase doentio, profundo e incompreensível: meu amor por São Paulo. 

Porque, olha, se tem um papel que eu tenho desempenhado bem é o de mulher desse malandro. Pensou que, por ter orgulho de ser “nascida e criada” aqui, pagar impostos, votar consciente, contribuir para o aumento do maior PIB do país você seria uma cidadã, Marina? Que nada! Eu sou mesmo é aquela que acorda cedo e sai andando na ponta do pé para não acordar esse safado que é São Paulo! Aquela que só o chama tarde, sabe seu gosto e na bandeja leva café, chocolate, biscoito e salada de fruta. Tudo por esse vacilão. 

E o que a parceira dedicada ganha em troca? Beijinho sabor hortelã de manhã? Feijão quentinho na hora do almoço? Uma recomendação carinhosa de “Se cuida” ao sair pro trabalho? Uma luz acesa em plena madrugada, com um lanche gostoso na mesa de jantar? 

Não! 

Ganho mesmo é um tsunami pluvial, o próprio bairro em destaque na rádio Sulamérica, o medo de parar no farol a qualquer hora do dia, o estacionamento a R$20 na primeira hora e R$3 a cada hora excedente, a impossibilidade de me locomover quando quero com o veículo que consome o 13º apenas para poder sair às ruas no ano que se inicia. 

Então… “Lei Maria da Penha” nele!?

Ah…também não é bem assim… 

.um dos pedaços que só os mais chegados conhecem.

Calo minha boca com cada cantinho alternativo que descubro na cidade, com os prédios antigos que convivem harmoniosamente com os novos, com as galerias e antenas da Avenida Paulista, com as lojas bonitas dos Jardins, com os bares da Vila Madalena, com o ipê rosa que – não sei como – sobrevive lindamente na Av. Bandeirantes e no papel de parede do meu celular, com o pedacinho de interior paulistano misturado com a maior colônia lituana da cidade que é a Vila Zelina, com os cinemas, shows, teatros e tudo o mais que não tenho dinheiro suficiente para consumir, mas que me dão fôlego só de pensar que estão ali para quando eu tiver.

Calo a minha boca com a vontade incontrolável de escrever esse texto durante o expediente, que poderia não ter começado por causa das chuvas da madrugada. Essas não me atrapalharam tanto, mas eu não teria chegado se não fosse a ajuda dos caminhoneiros que estavam estacionados e indicaram caminhos alternativos não só para mim, mas para todos os motoristas que tentavam cruzar a cidade para que esse malandro, que tanto nos maltrata, não pare nunca. E continue sendo o único que provoca esse sentimento em mim. São Paulo é meu malandro…e não tem mesmo espaço para mais um desse no meu coração. 

Por Má-Má. 

(livremente inspirada por: Vacilão , Cotidiano e por seu amor pela terra da garoa)

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  1. olha, qdo eu digo que vc é um ser espiritualmente elevado, vc não acredita.
    mas para amar São Paulo incondicionalmente, mesmo ciente de todos os problemas dessa cidade, devo dizer: vc é sublime!
    não sou nascida aqui, mas quase. e mesmo assim não vejo a hora de ter a oportunidade de dar um vazare daqui. pq aqui ngm vive, sobrevive.
    parabéns pelo texto! um dos melhores, na minha opinião, claro.

  2. ô meu pai…

    ta aí, né? as pessoas que moram aqui têm uma relação de amor e ódio com SP que só morando aqui é que a gente entende.

    Mas vou dizer: eu não odeio SP não. Não a cidade. Talvez as pessoas que já fizeram tão mal a ela. Aí São Paulo virou tipo um cara que levou mta porrada na vida e ficou durão, sabe? Mas no fundo, lá no fundo, ele é bom! E como é bom! Daquele tipo que sempre sabe como te surpreender positivamente.

    Não sei como vai ser mais pra frente, mas agora eu não troco São Paulo por nenhum “outro malandro”, Ma!

    =D

  3. Eu confesso que, como quase todo “caipira”, quando cheguei na capital me apaixonei loucamente e depois a relação foi esfriando, murchando e morri de saudades do meu interior quietinho, sem muitas novidades, sem muito trânsito, sem muito barulho…
    Mas não passou um mês e eu tava doida de saudade da cidade grande, da loucura, do caos, das pessoas apressadas… porque aqui tem tudo isso, mas, como você citou belamente no texto, também tem inúmeras oportunidades de cultura, lazer, educação e entretenimento, além das regiões charmosas que se escondem debaixo dessa névoa cinza.
    Então eu posso dizer que a minha relação com SP é maomenos igual a gente tem com o nosso trabalho… fica de saco cheio, não vê a hora de tirar férias, reclama um monte, mas depois que fica um tempão fora, sente saudades e quer voltar! E aí a gente percebe que aquilo não era tão ruim assim…

    E se não fosse por SP, eu nem teria vocês na minha vida.

    ;)

  4. Ameeeeeeei!!!

    Má, você é tão doce, que até seu “malandro” fica travesso nesse texto. Mas tenho que confessar: tbm não troco.

    Muitas vezes quando estou longe, sinto que sinto até falta da poluição, da neblina cinza e meio avermelhada do fim do dia.

    Amo, amo!!!

  5. Marina, tu não publica o email no comentário, né? É que também sou mulher de malandro e queria aumentar tua lista com a 13 de maio, o pão e o bolo e o silêncio inexplicável (por estar no centro) do Mosteiro de São Bento, a Liberdade, a cinemateca (outro silêncio estranho naquele lugar, um dos meus favoritos), a São Luís, o largo do Arouche……bem, até o Anhangabaú eu acho lindo. O viaduto Santa Ifigênia com aqueles arabescos foda, o CCBB do centro,o CCSP (já que comecei com as siglas) à noite ou aos fins de semana, as padarias em que rola almoço (não vou mencionar comida, que aí é coisa de covarde)….se deixar, eu aumento a lista fácil. Um beijo!

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