Família! Família! Cachorro, gato, galinha…

Padrão

 

Ele chegou lá em casa em 1994, pouco tempo depois que mudamos do apartamento onde eu morei por quase sete anos. A casa nova para mim significa um pacote de diversão garantida: a gente tinha um quintal, podia tomar banho de mangueira, as bicicletas estavam perto de nós, tinha um quarto de brinquedo e, claro, espaço para um cachorro.

Meus pais sempre foram bem realistas. Teremos quando pudermos. E a possibilidade veio logo, de surpresa. Meus pais foram me buscar em uma festinha de uma amiga (que, acreditem, aos sete anos comemorou seu aniversário em uma discoteca! Sim, discoteca com luz negra e tudo, que fazia nossas meias soquetes brancas brilharem como pedras preciosas) e, quando eu e uma amiga fomos entrar no carro – surpresa – já tinha alguém lá! Ou melhor, ele estava lá: nosso cachorro.

Ele era bem pequeno, compriiiiiiido e cor de chocolate. Meu pai disse que era igual ao da Cofap, aquele famoso, que fazia propaganda. Para mim, era uma novidade! Eu lá já tinha prestado atenção em propaganda de amortecedor!?

Foi uma festa. Ele voltou no meu colo e, quando chegamos em casa, já demarcou seu território na sala (e não foi com xixi), se enrolou no fio do abajur e correu de um lado para o outro que nem um foguetinho. Demorou alguns dias para escolhermos um nome, e o que ele recebeu foi sugerido pelo meu pai: Cacao (com O mesmo).

E assim foi por muito tempo. Eu e a minha irmã chegávamos da escola e corríamos para o quintal. Era nosso ritual. A gente sentava e esperava ele vir correndo para lamber a gente. Minha mãe assistia a tudo dando risada. O filho sempre foi dela, e eu adorava ter um irmãozinho tão carinhoso.

Teve uma época em que dividia as atenções com o Mingau (nosso gatinho albino que precisava usar protetor solar nas orelhas, que era carinhosamente arrastado pelo quintal pelo pescoço – juro, na maior amizade!), Dindo (o lindo azulão que ganhamos de presente do tio Natal), um peixe (sem nome) e a tartaruga da minha irmã (Scarlet, que foi doada a um pet shop, acho).

Os anos foram passando, cada vez eu fui ficando menos tempo em casa e, quando ficava, já não queria sentar para esperar ele vir me encher de lambida. Perdemos muitos chinelos e os pés das cadeiras foram todos corroídos pelo xixi daquele malandro. Nos fins de semana, era comum ele subir correndo a escada, tocar o terror nos quartos e sair em disparada antes que fosse pego por um de nós. Ele sabia que era cachorro de quintal, mas adorava tirar um sarro da nossa cara.

Há alguns anos, ele passou a subir e não conseguir mais descer sozinho. Dá para ver nos olhinhos dele, já azulados por causa da catarata, que o que antes era uma farra passava a ser um desafio. E, safado e corajoso que é, não recusa a carona para descer no colo de alguém lá de casa.

Quase sempre tenho a impressão de que ele sabe o que se passa com cada um da família. Está sempre pronto para botar a língua pra fora e deixar a marca em nossos tornozelos ou bochecha. Ele nunca foi de sossego, mas, por mais de uma vez, deitou comigo no sofá enquanto eu esperava o fim de semana passar. Parecia que era a única criatura capaz de entender o silêncio e a necessidade de companhia.

Hoje, ele está com 16 anos e o 17º ele completa em 12 de janeiro. A gente nunca fez uma festa para ele, mas não tem um ano em que eu não lembre que é aniversário dele. O latido dele já é bem rouco, os dentes são raros e, definitivamente, os olhos ficaram azuis. Ele ouve pouco, dorme bastante, adora quando está de roupinha e só come ração bem molinha ou papinha preparada pela mamãe.

Ele é parte da família. E ontem foi pro veterinário, onde passou a noite tomando soro e comendo aquela papa de latinha, bem macia. Hoje eu espero vê-lo lá em casa. E, ai dele se ele não vier correndo me lamber.

.cacao em sepia, já na melhor idade.

Por Má-Má.

»

  1. amei. puta texto sensível. ok, não estou surpresa por isso. mas me emocionei lendo todos esse carinho pelo cãozinho. tenho saudades da minha, lá em cpo gde, mas sei que ela é mto bem cuidada pela minha mãe e irmã. no começo, só eu queria ela. as outras diziam: não vou nem ligar. meu pai me escutou e comprou ela pra mim. hoje sou a dona menos dona… será que ela sente minha falta? não sei, mas que ela morre de correr qdo vou pra casa, isso sim. e fato, depois de tantos anos, ergue a patinha e corre com dificuldade em três. a reumatite na pata traseira chegou pra lili. :(

    • o cacao tem artrose…e sopro tb… rs

      é muito louco, né. eu acho que eles sentem tudo…de bom e ruim. e são os mais sinceros na reciprocidade…nunca esperam receber mais do que vc dar.

  2. Também me emocionei lendo seu texto. Acho que só quem tem cachorro ou um animalzinho sabe como é essa sensação maravilhosa, de ter um amigo de verdade mesmo! Não tem como falar que minhas cachorrinhas não são parte da minha família, da minha vida! Poxa, já estamos juntas há dez longos anos, é quase um casamento, e muuuuuuuito feliz (apesar de todas as mordidas que elas já me deram hahaha)! Lindo texto!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s