Memória olfativa

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Assim como a May, tenho sérios problemas de localização. Mas o problema se limita à geografia porque, se dependesse do cheiro que cada rua de São Paulo tem, meu nariz seria um GPS.

 

Tenho uma relação bizarra com a memória, seja ela qual for. Pensei em fazer uma série de posts sobre todas as categorias e resolvi começar pela olfativa; porque ela me leva de volta para o lugar, o sentimento, a época, à comida ou à roupa que um dia estiveram perto de mim ao vivo, em cores e, claro, em cheiro.  Aqui estão algumas memórias tão aguçadas quanto meu olfato:

 

 

O shampoo da minha avó: o Colorama verde, muito verde, que eu nunca vi à venda em nenhum lugar. Pelo que sei, foi o primeiro que ela comprou, logo que chegou a São Paulo, há mais de 40 anos. Aquele cabelinho liso e fininho foi direto da banha que virava sabão lá na roça para essa fórmula ultra-secreta e exclusiva (gosto de pensar que é só dela) e até hoje nada me dá maior sensação de conforto do que aquele cheirinho verde.

 

 

O protetor de lábio sabor abacaxi da Lipsmacker: só comprei porque era o único que tinha filtro solar, antes de viajar para fora do Brasil e enfrentar um mês de neve (é! Porque neve queima também!). O danado durou a viagem inteira e até hoje abacaxi me faz lembrar dos morros de neve que desci (e dos tombos que levei) em cima da câmara do pneu de caminhão da family de lá. Nunca mais vi para vender.

 

 

O strogonoff da minha mãe. Ela odeia cozinhar, mas é chegar em casa e sentir aquele cheiro pra esquecer do trânsito que peguei do trabalho até ali. Nem adianta dizer que nunca provei o da sua mãe, pai ou de qualquer chef famoso. Para agradar toda a família (e manter a sanidade da minha irmã), não leva um pingo de mostarda, mas, sei lá o que ela coloca a mais, faz toda a diferença, do portão de casa até o prato colocado na mesa.

 

 

CK One: o perfume que uso há 10 anos. Todo dia, três borrifadas que fecham o ritual matutino em casa. É com ele que saio quando o sol ainda não nasceu e é com ele que volto quando o astro-rei já se pôs.

 

 

Garagem de prédio: cheiro gelado de cimento. A lembrança de um tempo em que combinar a bermuda de cotton com a camiseta e tênis era a maior preocupação. Ainda bem que nunca consegui usar as sandálias Melissinha de plástico que tanto gostava. Naquele cimento da garagem do prédio onde eu morava, munida com meu POPI, apostei (e ganhei) muitas corridas com as outras crianças (todas maiores e mais velhas). Claro que o cimento gelado quase virou refeição. Alguns capotes em alta velocidade também eram inevitáveis.

 

 

Milho cozido: praia e Av.Paulista. Duas referências, de momentos completamente diferentes da minha vida. O primeiro, em uma época que hoje parece muito, muito distante: as constantes idas à Praia Grande e os passeios (perigosíssimos) sentada no guidão de uma bicicleta preta hiper retrô. O motorista gostava de se arriscar por entre as nuvens de fumaça dos carrinhos de milho que tomavam conta do calçadão e todas as vias adjacentes. Juntos, quase derrubamos vários, só pra passar no meio da fumaça que saía da panela de milho cozido pelos tiozinhos caiçaras. A referência mais atual, que, sempre que posso, torno a viver, é me arriscar nos “mío no pratinho” da Av. Paulista. Duvido que a manteiga seja mesmo Doriana (é muito melhor!), mas nunca tive coragem de perguntar pra não deixar os ambulantes em saia-justa.

 

 

Poderia ficar o dia todo exercitando meu nariz (e minha memória), mas paro por aqui. Até porque a memória olfativa nunca está sozinha e quase sempre vem acompanhada de uma boa dose de saudosismo. Agora é respirar fundo e… droga! Acabo de ter uma alucinação lembrando do cheiro do chocolate meio-preto meio-branco do Iô-Iô Mix que levava pro recreio do colégio! Alguém sabe se isso ainda é vendido?

 

 

Por Má-Má.

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