Eu votaria nele

Padrão

Semana passada, mais precisamente, 5ª feira, estava indo pro trabalho de manhã quando, de repente, duas motos da escolta federal pararam a Av. Paulista. O farol abriu e fechou umas 8 vezes e eu e mais milhões de pessoas que passam por ali todos os dias, ficamos esperando alguma coisa acontecer. E aconteceu. Um comboio de carros transportando ‘pessoas importantes’ passou por ali. Uma Mercedes seguida de 7 Passats pretos escoltados por quase uma dúzia de motos e duas Blazers da polícia federal; acompanhados de muita atenção. Eles pararam a vida de, como já disse, milhões de paulistanos para passar por ali. Reações? Curiosos. Revoltados. Indignados. Indiferentes. Atrasados. Depois de algumas horas, descobri, por meio dos noticiários, que eram as Vossas Excelências Lula e Alan García, presidentes do Brasil e Peru, para uma reunião a portas fechadas na FIESP.  

 

Quando eu era bem pequena, bem pequenininha mesmo, achava que o presidente era tipo o rei brasileiro. Não sei pq, mas pensava que rei não era na ‘língua brasileira’, até começar a aprender as cores em inglês e perguntar pra minha teacher se rei era presidente em brasileiro. Ela me contou que rei era king e só. Pra mim não fez muita diferença pq rei e presidente eram tipo o menino Jesus, que via e sabia de tudo. Eu achava que, quando eu ia pra escola, o presidente, de algum jeito, recebia essa informação e com um sorriso no rosto pensava: “Isso mesmo, Mayra! Boa menina”. Uma coisa meio papai-noel assim. Claro que isso acontecia antes de eu ter qualquer contato com a política e saber, de um modo bem geral, o real papel dos políticos neste País.

 

E isso aconteceu quando eu tinha uns 4 ou 5 anos. Meu avô já era prefeito da cidade e se candidatou à reeleição. Era um médico respeitado e bastante querido, pelo que eu via. Em época de eleição, eu passava o dia todo na rua, com a cara sorridente do meu avô estampada na camiseta e boné, distribuindo santinho pra todo mundo que passava na rua. Eu dizia: “Vota no meu vovô. Ele é super legal. Ele entra comigo no balde e tomamos banho de mangueira!”. Nem sei se alguém ouvia o que eu dizia, mas eu lembro. Eu também gostava do vice, o tio Scavassin, mas não lembrava de falar dele na hora. Eu adorava tudo aquilo! A família toda reunida, em ritmo de festa, agitando pelas ruas da pequena cidade. E eu ainda podia comer uma coxinha na padaria quando ficava com fome perto da hora do almoço. E isso era pra poucos! Minha irmã, que na época tinha uns 2 ou 3 anos, não podia vir com a gente: ficava em casa com a babá. Eu era uma privilegiada! Eu só não me conformava que eu não pudesse votar! Como assim? Tbm quero! “Filha, aperta o botãozinho pra mamãe, então”. Eba!

 

Me lembro como se fosse ontem que subia com meu avô no palanque e ficava agarrada à perna dele enquanto ele discursava e as pessoas o aplaudiam, aclamavam seu nome e queriam o abraçar. Claro que eu me sentia importante. Não entendia uma palavra do que ele dizia, mas concordava com tudo. Afinal, um cara legal como meu avô, que tinha uma fábrica de chocolates embaixo do banco do carro, não poderia fazer mal aos outros. Ele amava aquela cidade e queria que ela fosse a melhor do mundo. Meu pai me explicou que Brasil era maior que Itapeva, como se fosse um pontinho dentro de um grande círculo. Eu achava que meu avô era amigo do presidente.

 

Bom… o oba-oba acabou quando saiu o resultado das eleições. Na época, os votos ainda eram em papel e contados um a um. Pessoas comuns contavam os votos. Lembro de algumas amigas da minha avó serem voluntárias para isso. Sistema nada confiável, vejam vcs, uma vez que quem votava também contava os votos e não havia fiscalização ou conferência. A gente ouvia no rádio o parcial das contagens de tempos em tempos. Estávamos na cozinha quando anunciaram a eleição do novo prefeito. Não entendi (naquela época, já perceberam, não entendia quase nda rs) pq todos ficaram tão magoados. Reuniões a portas fechadas. Visitas meio fúnebres e meu avô triste. Depois de uns anos fiquei sabendo que, segundo meu pai e tios, rolou roubalheira de um lado e resistência à corrupção do outro. Não era tudo feito de coisas certas e legais.

 

Hoje, depois de anos de convívio com a política e seus escândalos, consigo perceber que, daquela época, sobrou, além de saudades imensas do meu avô e um busto dele no centro da cidade, uma política porcalhona e políticos maus. Faltam pessoas legais como meu avô lá em Brasília.

 

 

Por May.

»

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s