Antes que deixemos de ser jovens…

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Quero compartilhar trechos de uma crônica com vocês. Não sei muito bem qual é o tipo de relação das pessoas com aquilo que lêem. Sei que eu tenho certa dificuldade de lembrar onde li aquele texto que gostei ou especificar as características desse ou daquele personagem do livro tal do autor X. Enfim, de alguma forma, tudo isso se mistura nas diversas áreas do meu cérebro e lá ficam pra me confundir com as referências.

Mas existem as exceções. Aqueles textos que sei de cor e salteado, de frente pra trás e de trás pra frente, cito nome, autor e até década em que foi escrito. Como é o caso dessa crônica do Affonso Romano de Sant’Anna, um escritor que tem uma obra extensa e que descreve algumas situações de forma tão simples e tão real que parece que estou vivendo o momento. De qualquer forma, “Quando se é jovem e forte” é um texto que marcou. Talvez por ainda não ser jovem quando o li pela primeira vez (e contava com os meus 13 anos) e ansiar pelo momento de o ser para enfim poder entender do que é que ele estava falando.

Acontece que agora me parece que faltam pessoas para nos dizer uma palavra de incentivo e sobram aquelas que pressionam. Antes que esqueçamos que ainda somos jovens, vamos à crônica:

Uma vez uma mulher me disse: vocês jovens não sabem a força que têm.

De certa maneira ela dizia: vocês têm o cetro na mão. E eu, jovem, tendo o cetro, não o via. Aquela frase lançada generosamente sobre minha juventude poderia ter se perdido como tantas outras que necessito hoje, mas não me lembro. Contudo, ela ficou invisível em alguma dobra de lembrança. Ficou bela e adormecida muitos séculos, encastelada, até que, de repente, despertou e me veio surpreender noutro ponto de minha trajetória.

Possivelmente a frase ficou oculta esperando-me amadurecer para ela. Só uma pessoa não-mais-jovem pode repronunciá-la com a tensão que ela exige.

Vocês jovens não sabem a força que têm.

Pois essa frase deu para martelar em minha cabeça a toda hora que uma adolescente passa com sua floresta de cabelo em minha tarde, toda vez que um rapaz de ombros largos e trezentos dentes na boca sorri com estardalhaço gesticulando nas vitrinas das esquinas.

Outro dia a frase irrompeu silenciosamente em mim como coroamento de uma cena. Uma cena, no entanto, trivial. Estávamos ali na sala de um apartamento e conversávamos. Um grupo, digamos, de pessoas maduras. De repente entra pela sala uma adolescente: pedindo à mãe que veja qualquer coisa em seu vestido ou lhe empreste uma jóia. E quando ela entrou tão naturalmente linda, não de beleza excepcional, mas de uma beleza que se espera que uma jovem tenha, quando ela entrou, um a um, todos foram murchando suas frases para ficarem em pura contemplação.

Ali era disfarçar e contemplar. Parar e haurir. Esta experiência se repete quando se entra numa universidade e se vê aquele enxame de camisetas, jeans e tênis gesticulando e rindo entre uma sala e outra, entre um sanduíche e um livro, sentados, displicentes, namorando sob árvores e na grama, como se dissessem: eu tenho a juventude, o saber vem por acréscimo.

Infelizmente não vem. E a juventude se gasta. Como as pedras se gastam, como as roupas se gastam, se gasta a pele, embora a alma se torne mais densa ou encorpada.

Por isto, ver um (ou uma) jovem no esplendor da idade é como ver o artista no instante de seu salto mais brilhante e perigoso ou ver a flor na hora em que potencializa toda a sua vida e imediatamente nunca mais será a mesma.

Claro, há jovens que são foscos e velhos e velhos que são radiosos adolescentes. Não é disto que falo. Estou falando de outra coisa desde o princípio. Daquela frase que aquela mulher depositou na minha juventude e agora renasceu.

Gostaria de doá-la a alguém.

OK, Sant’Anna. Desejo atendido!

O texto sem edição e outras palavras do Sant’Anna aqui.

Por Carrô.

Uma resposta »

  1. não sei se um dia eu vou entender toda essa força aí…hahaha
    o que entendi é que sempre há tempo para ser jovem. o legal é que temos a vida toda pra isso! :)
    ow, essa força vale pras dores que sinto hoje pós-primeira aula de yoga!? hahahaha

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