Ele não é exclusividade nossa.

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O personagem urbano da vez é, sem dúvida, o mais odiado em São Paulo. Ele é formado por milhões de partes que, separadamente, parecem inofensivas e são objeto de desejo de muita gente. Ele costumava fazer parte de nossas vidas de segunda a sexta-feira e em horários específicos. Hoje, ele é presença constante em qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana. Uns dizem que ele é um mal necessário. Outros dizem que ele é resultado do crescimento econômico e enriquecimento da população. Pode ser também falta de planejamento urbano das administrações dessa cidade. Pra mim, é tempo longe da família e amigos. São pelo menos 10 horas desperdiçadas por semana, presa dentro de um carro ou ônibus. Preciso dizer que o personagem da vez é o trânsito?

Ele é resultado de uma cultura que diz que ter automóvel é sinônimo de status. Por trás dele existe uma política de décadas de construção de vias que priorizam o transporte privado em detrimento do transporte coletivo. Ele é o responsável pela poluição que tira um ano da vida de quem nasceu e vive por aqui. Indiretamente, ele é o causador de doenças provocadas pelo stress, sedentarismo e outros males da vida moderna.

Já vi ele provocar as mais diferentes reações nas pessoas: existe aqueles que adoram uma buzina e não hesitam em apertar o volante ao ser fechado no meio da Marginal; conheço o tipo que era totalmente contra qualquer briga de trânsito e agora já xinga quem não lhe dá passagem e buzina de volta para os motoqueiros; tem quem já desistiu de enfrentar o caos das horas do rush e resolve chegar mais cedo e sair mais tarde do trabalho na tentativa de não perder três horas por dia parado nas ruas dessa cidade. Aqueles que utilizam o transporte coletivo enfrentam tudo isso com um desconforto a mais: a lotação dos ônibus, trens e metrôs e veículos sucateados.

Ele fez com que todos os paulistanos e pessoas que aqui vivem se tornassem especialistas de trânsito e tivessem solução para todos os problemas de transporte da cidade. Ele afasta as pessoas com o tempo desperdiçado no trajeto Casa Verde – Bela Vista, Butantã – Jabaquara, Santa Cecília – Vila Prudente ou até mesmo num simples percurso Berrini – Itaim Bibi. Mas também faz com que elas se reunam. Para reclamar do congestionamento que bate recordes a cada chuva que cai na cidade, nas caronas de quem tenta fazer sua parte para aliviar as vias públicas, num happy hour com a desculpa de que se vai esperar o transito “desafogar” um pouco pra ir embora pra casa.

Nosso personagem urbano tem status: ele é a estrela principal do SPTV e disputa com a política a preferência dos jornalistas que cobrem os assuntos da metrópole. Cadernos e revistas especiais já foram feitas para falar só dele! Ah, se a Saúde e a Educação tivessem tanta importância para a opinião pública como ele tem… Com certeza teríamos aí mais de 10 milhões de especialistas em Educação Primária e em Saúde Pública.

Mas… por que se importar com assuntos que aparentemente não fazem parte do seu cotidiano, não? Lembramos da situação vergonhosa da saúde pública quando um conhecido nosso é mal atendido nos pronto-socorros mal equipados da cidade. Ou quando precisamos decidir pela educação de nossos filhos e vemos que as escolas estão todas sucateadas. Por isso nosso personagem é tão assediado: com ele, todos sofremos. Eu, você, a faxineira do supermercado, o empresário, a executiva de uma multinacional e até mesmo os políticos. Mas não falemos só mal, oras… consigo aqui citar duas coisas boas que ele pode oferecer:

·         Oportunidade de conhecer novas pessoas – no coletivo, as pessoas acabam fazendo amizades para suportar o tempo parado; no privado, as já comentadas caronas permitem uma aproximação daqueles que seguem juntos para o trabalho.

·         Tempo “livre” para colocar a leitura em dia – já que é inevitável pegar aquele congestionamento, coloquemos um livro debaixo do braço e vamos lendo até o destino final.

 Tem ainda quem esteja sempre acompanhado de música durante o trajeto, tem quem mude de casa para ficar mais perto do trabalho e ganhar mais qualidade de vida. Tem aqueles que simplesmente se recusam a passar por isso todos os dias, resolvem que morar em São Paulo não é mais viável e mudam-se para uma cidade menor.

Nosso personagem, convenhamos, rende muitas converas, discussões, teorias, estudos e posts. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Tokio, Paris, Nova Iorque, Los Angeles, Lima… o trânsito não é exclusividade nossa. Mas é algo tão característico de São Paulo que até esquecemos que outras cidades sofrem desse mesmo mal. Aqui, ele parece ganhar vida própria e conseguir irritar as pessoas mais zens. Aposto que se Dalai Lama morasse por aqui ele teria aprendido todos os palavrões que a Língua Portuguesa já criou e outros mais. Eu sei que já ouvi  muitos deles nas ruas dessa cidade…

 

Trânsito de SP

Entre a Juscelino e a Faria Lima, algumas horas de nossa vida...

 

Por Carrô.

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  1. Momento (semana) propício para falar desse personagem de São Paulo, que, ao contrário de Fofão e Carlão, não tenho o mínimo carinho. Desculpa Carol, mas, na prática, não consigo enxergar pontos positivos desse caos diário. E, já tenho dito, minha decisão foi feita: Aproveitem-me nesses últimos 12 ou pouco mais meses, pois, meu objetivo de vida para esse prazo é sair dessa cidade, que já me fez tão bem um dia…
    Beijos e bom fds!!

  2. meu…é um dia por semana que eu gasto no trânsito!!!!
    pode isso!?!?! são 52 dias no ano…parada, literalmente.
    é, baby…eu não tenho medo do fofão, mas do trânsito eu tenho!!!
    hahaha

    hoje o fretado quebrou de novo!!! ai, que pobreza.

    mayra, como assim, mano!?
    huahauahuahauaha

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