Olhar pra trás e sorrir

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Por que nunca pensamos que o momento que estamos vivendo agora pode vir a ser uma lembrança saudosa mais pra frente? Talvez se tivéssemos isso claro, aproveitaríamos mais cada dia, cada companhia, cada evento. Falo aqui das memórias bem velhinhas, já empoeiradas. Não das memórias de 2 ou 3 anos atrás, que também são deliciosas de lembrar. Mas parece que quanto mais velha, mais aperto no coração e gelo na barriga dá. E esses momentos de 3 anos atrás serão mais gostosos de serem lembrados quando tiverem passado uns 10 ou 12 anos. E dái a gente lembra de novo. E gosta.

 

E não digo de lembrar da rua exata que precisava virar para chegar naquele lugar ou lembrar do nome de alguém. Digo lembrar do que aconteceu no exato momento em que virava a esquina para chegar naquele lugar (e do lugar em si). Ou, mesmo não lembrando do nome da pessoa, lembrar do que ela te disse naquele dia e você não esqueceu nunca mais.

 

Esse final de semana lembrei de várias coisas. E cheguei a lacrimejar em algumas delas. Lembrei dos loucos e geniais avôs que tive. Um entrava no balde para brincar de água com os netos. E cultivava uma fábrica de doces embaixo do banco do carro. O outro deixava, com toda sua paciência (jamais presenciada por mulher e filhos), as netas pintarem seu rosto com batom, sombras coloridas, glitter e muitas risadas. E esse, ainda mantinha um freezer industrial no quintal apenas para nas férias, encher de picolés dos mais diferentes sabores e passarmos os 15 dias na casa do vovô à base de sorvete.

 

E daí você começa a ir mais longe e lembrar de quando sua irmã caçula tinha a idade que seu primo tem hoje: 6 meses! E é fato: não é conversa só de velho, mas sente o peso do tempo que passou. E fica imaginando como as coisas estarão, com quem você estará ao lembrar, daqui 15 anos, de quando ele tinha apenas meio ano. E daí lembro de quando saíamos para fazer piquenique na beira do rio, que hoje nem água tem mais. E de quando brincava com meu tio de 24 anos, que chegava em casa de manhã quando eu estava acordando. E eu já o amava. E hoje ele é pai do pequeno de 6 meses.

 

E quando uma pessoa começa a mergulhar em lembranças do passado, é inevitável que quem está por perto adira à onda e se entregue ao passado também, principalmente quando estava junto no momento relembrado. Daí lembro com a minha irmã que um dia colamos decalques de xícaras, da fábrica de porcelana do meu avô, na casa inteira da minha avó. No banheiro, na cozinha, no quintal, nos quartos… e ela achou lindo! Disse que éramos artistas.

 

Nas férias, tínhamos aulas de tipos de letras com meu pai. Letra tipo gordinha. Letra tipo palito. Letra tipo derretida. Letra tipo fogo. Ficávamos horas tentando imitar a caligrafia divertida dele. E, quando não estávamos ensaiando coreografias de balé para apresentar pro papai e pra mamãe quando chegassem do trabalho, montávamos quebra-cabeças, brincávamos de Barbie ou de escolinha.

 

E então, começo a lembrar de todas amiguinhas que foram ‘as melhores’. De todos os menininhos de quem eu já gostei. De todos os cachorros que já cuidei. De todas as professoras que já admirei. De todas as broncas que já levei. De todas as conquistas. De todos os elogios. De todos os sonhos realizados e de todas as frustrações. Pensando nisso, perco bastante tempo tentando imaginar como será lembrar de tudo isso que se passa na minha cabeça hoje mesmo sabendo que não tem mesmo como adivinhar certas coisas.

 

 

Por May.

Uma resposta »

  1. É, baby.. é inevitável ler tudo isso e não pensar no velhor bordão “recordar é viver”.

    E recordar é também resgatar o que um dia fomos e vivemos para que isso continue nos inspirando a seguir em frente, não? Porque só assim é que poderemos, lá na frente, lembrar de tudo o que tem sido vivido. Sem dúvida, a vida é feita desses momentos delicious. E que minha memória me permita relembrá-los. Todos eles.
    =]

    Beijos

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