Parâmetros diferentes

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Há quem diga que quem nunca teve algo não sofre tanto quanto aquele que já o teve e perdeu. Eu, particularmente, concordo. Estive por dois meses na Alemanha – dez06 e fev07 -. Experiência deliciosa – e fria (em todos os sentidos). Fiquei na casa de uma família típica alemã para conhecer de perto a cultura, o cotidiano e blá blá blá, mas o que percebi mesmo foi como eles reclamam por nada. Tinha uma irmã postiça lá. Um perfil rápido: 19 anos, estudante, rica, com carro, rebelde sem causa – totalmente sem causa – e ainda uma criança. Queria ver se ela tivesse que pegar um busão lotadérrimo, que te espirra pra fora para ir à escola e não apenas ‘ter que’ pegar a chave de seu carro e estacionar na porta da escola com toda a segurança que um país de 1º mundo oferece. Mas ela reclama que de vez ‘em nunca’ tem que emprestar a chave do carro para a avó ir ao supermercado.

 

Queria ver se ela se deparasse com mais crianças na rua, cheirando cola e sem perspectiva nenhuma de futuro do que sentadas na sala junto com ela esperando a aula começar. Mas ela reclama que o som do rádio do carro dela não ‘lê’ MP3.

 

Queria ver se o busão – que, caso ela pegasse – demorasse cerca de 30 a 40 minutos apenas para chegar ao ponto e mais 1h30, em dias de sorte, para chegar ao seu destino. Mas ela reclama simplesmente de ter que pegar ônibus quando o faz. Porque não tem mais do que reclamar em relação ao transporte urbano público, uma vez que os ônibus passam pontualmente de acordo com a grade de horários pregada no ponto, sem pichações ou mendigos dormindo embaixo dos bancos. Porque os ônibus são hiper limpos, não fazem qualquer barulho e não soltam fumaça por serem ecologicamente corretos. Porque no inverno, aquecedores garantem o conforto do passageiro e no verão, o ar-condicionado é ligado. Porque eles não têm cobrador gritando: “Dá um passinho aí pra frente pro pessoal podê passá na crataca aqui ow!”. Porque simplesmente as pessoas pagam por pura e espontânea vontade o seu ticket sem nenhuma fiscalização. Há uma multa para aquele que for pego trafegando de graça no ônibus, mas os fiscais andam uniformizados. Ou seja, você olha pra ele, tá sem bilhete, vai lá e paga. Compreendeu maluco? O mesmo acontece nos trens e metrôs. Diferente, não? Sim, mas eles reclamam.

 

Ela reclama que têm provas durante uma semana inteira – e que são difíceis -. E que trabalha em um posto de gasolina duas vezes por semana, umas 3 horinhas, pra ganhar uma graninha extra pras baladas. Achei estranho também esse ‘bico’, mas ela me explicou que lá não tem pessoas menos favorecidas (leia-se pobres) para servirem os mais favorecidos (leia-se ricos), então, eles mesmos fazem esse trabalho. Geralmente jovens. E eu? Falava (mais pensava, né…) o que quando ela se lamentava? Dizia que eu trabalho durante o dia, sim, 8 horas, e ainda estudo à noite. Ah! E fazia aula de alemão no sábado de manhã. Lógico que isso é normal aqui no Brasil. Ela reclamou só de se imaginar no meu lugar.

 

Ela reclama que a mãe me convidou para esquiar – Que chatice! -. Eu reclamo que minha mãe ainda não teve oportunidade de esquiar. Ela reclama do passado da Alemanha nas mãos de Hitler. Eu reclamo da situação dos brasileiros que são seus próprios ‘Hitleres’. Ela reclama que não ganhou um aparelho de som de Natal, mas esquece que ganhou um computador modernérrimo, uma nova televisão para o quarto e uma máquina digital de última geração. Eu reclamo que no Natal, existem muito mais crianças que passam sem ganhar nada do que as que ganham muitos presentes. Pois é. Não há o que dizer. E não estou julgando-a (reparem no título do texto). Acredito mesmo que nesse mundo existam mais mundos do que podemos contar ou imaginar.

 

E não reclamo do Brasil. Lá, o que mais fazia era elogiá-lo. Porque podemos ser pobres, ignorantes ou subdesenvolvidos, mas somos muito mais homens que eles! Uhu!

 

Ah! E não podia deixar de dizer que, quando ela veio para São Paulo, passar um fim-de-semana comigo … adivinhem? Quase morreu de paixão pelo Brasil. E pelos brasileiros, óbvio. E não reclamou de quase nada.

 

Por May.

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  1. Minina!! Tava inspirada, hein?!!?

    E devo concordar, parâmetros são tudo nessa vida….

    Quando eu estava voltando de Dubai um cara chegou pra mim e perguntou:
    – Pra onde vc foi? Gostou? De onde vc é?
    Eu: Fui pra Turquia e Dubai, adorei a Turquia (é lindo demais) e sou brasileira.
    Ele: VC É BRASILEIRA???? Não acredito. O Brasil é o país dos meus sonhos. Lá todos são amigáveis, o cenário é lindo, as pessoas são bonitas, muito melhor do que a Turquia.
    Eu: Sim, o Brasil é tudo isso, mas vc não pode fazer essa comparação. São lugares completamente diferentes.
    Ele: não não, Brasil é bem melhor.

    Eu, após descobrir que o cara era iraniano, desisti de argumentar, pq eles são muito cabeças-duras.
    Ele tbm reclamava de tudo que fazia parte da cultura deles, reclamava do frio que fazia na Turquia (pq ele tb foi pra lá no inverno), reclamava que o povo não era amigável…. e tudo que ele falava não batia com o que eu tinha vivido. Estranho….

    Enfim, são os benditos parâmetros.

  2. Olá, meninas!

    O blog de vocês está bem bacana! Tenho acompanhado sempre que posso ou lembro! Comentei isso com a Marininha, qd nos encontramos nos Chicohamburguer, no aniversário de uma amiga dela, onde estava uma amiga minha, enfim, uma confusão sem limites!!!

    Boas histórias pra vc’s!

    Bjos

  3. Pingback: “Ê Brasilsão véio” « A palavra final é: continue…

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