O homem do sapato de almofada
Eu o conheci. Na verdade era um cara, não exatamente um homem. Não sei porque ainda faço distinção entre essas definições, mas para esse cara, o cara de sapato de almofada, eu aplico cara e não homem. Ele mora por Gràcia, um bairro (onde eu não moro) aqui de Barcelona muito charmoso, movimentado e cheio de gente normal e gente diferente.
Eu o conheci num dia em que fui a uma das poucas lavanderias “self-service” daqui, que nem fica tão perto de onde eu moro. Lotei de roupa nosso carrinho de fazer compras, peguei o metrô e me perdi para chegar a uma praça que já tinha visitado algumas vezes, a Plaza del Sol.
Ela tem um pátio bem grandão e por toda sua volta há restaurantes, barzinhos e esta lavanderia, onde ninguém trabalha, só você. E você ainda paga para isso. Se você precisa de ajuda, tem um telefone de emergência. Sim, de emergência, porque se A Bolha resolve te atacar, você precisa de um telefone de emergência, claro. Eu estive nesta lavanderia por quatro horas neste dia. Na verdade, estive fora dela, embaixo do sol delicioso da Plaza del Sol, esperando que as máquinas gigantes trabalhassem por mim.
Nesse meio-tempo, entre muitas músicas, parágrafos ignorados e movimento em volta de mim, o cara do sapato de almofada se aproximou. Ele usava um chapéu panamá, uma camiseta azul, um lençol amarelo (que só cobria a parte da frente) e um vermelho (que cobria a parte de trás) amarrado na cintura, também usava calça, mas não consegui ver de que cor, tinha um cabelo que era um tufo, black power, e parecia que o chapéu tinha sido encaixado ali com super-glue (como eles chamam Superbonder aqui!). Mas nada disso chamou tanto minha atenção como seus sapatos, ou melhor, as duas almofadas que levava embaixo dos pés, amarradas por dois panos verdes. Sim, era um sapato de almofada. Ele se aproximou e a conversa fluiu em inglês, espanhol e muito sotaque indefinido:
- Cara do sapato de almofada: Buenos días
- Eu: Buenos!
- CSA: Você mora no bairro?
- Eu: Não. E você?
- CSA: Sim. Há quase seis meses. Eu gosto daqui.
- Eu: Eu também! E nem moro aqui.
- CSA: Você gosta de Barcelona?
- Eu: Sim. E você?
- CSA: Sim. De onde você é?
- Eu: do Brasil.
- CSA: Brrrrrrésil? (com um sotacão francês)
- Eu: Ouie. E você?
- CSA: de Parrí!
- Eu: Legal!
- CSA: Você gosta do sol?
- Eu: Amo! E você?
- CSA: Eu também. E da praia, você gosta?
- Eu: Amo! E praia com sol, ainda mais!
- CSA: Eu também! Você já passou bastante tempo na praia ouvindo o mar?
- Eu: Sim. E você?
- CSA: Também! Sabe quando a água fica batendo nas pedras, indo e voltando… doesn’t it sound like…like music?
- Eu: Sim. Parece mesmo.
- CSA: Você está esperando algum amigo?
- Eu: Não… estou esperando minha roupa secar.
- CSA: Ah, claro!
- Eu: Ops. A máquina parou. Preciso ir lá buscar minhas coisas.
- CSA: Vai lá! Obrigado.
E o nosso ciclo acabou junto com o da secadora.
Eu me levantei, a gente sorriu. Quando voltei, o cara já estava iniciando outro ciclo com novos amigos, posando para fotos de uma mocinha bastante interessada em seus sapatos de almofada. E eu segui o meu, pensando que vestir o sapato alheio – ainda mais este de almofada – pode ser mais que confortável… pode… soar como música!
Por Má-Má.
Haja vida!
Há alguns dias houve uma ruptura em minha vida. De verdade. Além das milhões de coisas novas que acontecem a cada dia nessa cidade que ainda me parece nova, uma ruptura literal provocou mais uma mudança. Minha mochila da Billabong (quem me conhece ao vivo, conhece essa mochila) rasgou. E foi de vez!
Na última etapa da mudança para um novo lar (eu digo que as mudanças são mais constantes que a rotina), tentei enfiar meu notebook dentro dela, que até então só tinha carregado meus analógicos e rabiscados cadernos. Ela não aguentou. Sucumbiu. Ela, o zíper e o tecido todo em volta do zíper.
Fui a uma sapataria, que consertaria minha mochila no Brasil por um precinho camarada, em um prazo também camarada. Mas aqui sapataria só conserta sapato mesmo, e o sapateiro me convenceu de que seria melhor eu comprar uma nova, porque técnicos como ele cobram caro pelo que não conseguimos fazer. Alguns minutos de conversa com o simpático Fabian (o sapateiro) e saí de lá pensando…
Quando me disse que não consertava mochilas, mostrei a minha a ele mesmo assim, para que ele avaliasse o estrago. Além de fazer um orçamento por cima, com base no que ele cobrava quando ainda consertava mochilas, me falou: “Mas essa mochila… não tem muita vida.”
I’m easily ofended, então respondi na hora: “Não lhe falta vida! Sobra-lhe vida, por isso ela está assim, gasta e rasgada!”. E ri, para que Fabian entendesse que ali havia sentimento, e não um pedaço de pano. Funcionou. Pois Fabian se justificou, dizendo que ela já estava rasgada e que não teria muita vida futura, mas que entendia o que eu queria dizer; contou que tinha uma mochila há mais de 16 anos, do tempo em que suas filhas ainda eram pequenas e ele as levava para passear. Hoje, ele a usa para pescar e acampar nas montanhas. Não contente em descrevê-la, foi a um quartinho buscá-la e me mostrou. Era verde musgo, bem simples, com um bordado “España”, mas parecia nova, cheia de vida no passado e com muita vida pro futuro. Disse a ele que a minha tinha a metade da idade da dele, mas gostaria que ela estivesse com a mesma vivacidade que a sua.
Então Fabian me aconselhou que a guardasse como recordação. E eu seguirei seu conselho, mas só até que não precise mais dela fisicamente para me lembrar de tudo que passamos. Mais ou menos o que tenho feito com arquivos antigos que me ensinaram muito e agora só servem para ocupar um espaço que já não lhes pertence no HD interno crimonoso que é a minha memória de milhões de teras. Porque, né?, moving on também significa vida. E pro futuro.
Por Má-Má.
Update: Fabian não consertou minha mochila, mas o fez com minha bota. Ela está linda, sem rasgos e, de quebra, ganhei esponjinhas de cortesia para limpá-la!
O poder da síntese
Fiquei tão empolgada com a estrelinha que ganhamos da Nat que esqueci de uma parte bem importante da brincadeira toda: responder algumas perguntas de frente com Gabi sobre nós!
Gosto de definir coisas, tentar explicar tudo com palavras. As óbvias, que nem sempre são as menos interessantes (gente, vamos valorizar o óbvio, aliás, porque o coitado anda bem esquecido) são, como diz o adjetivo, óbvias. Um exemplo: sabe o que eu sou? Sim. Eu mesma. Se você me conhece, deve saber. Eu sou baixa (insira qualquer piada interna aqui). É óbvio! E disso eu costumo não esquecer. Mas como eu me sinto sendo baixa… não, não conseguirei definir em uma palavra, e aí voltarei ao “sou” e ponto.
Outro exemplo, mais interesante (e nesse caso, menos óbvio): no fim de semana, tentei explicar a uma menina que mora em Nova Iorque, é filha de colombianos e está em Barcelona estudando como eu, o que era piruá. Piruá, aquele milho teimoso que não quis virar pipoca. Acha que nunca ouviu essa palavra na vida? Sabe o que você é? Desatento. Assista a este vídeo e me diga se nunca ouviu mesmo. Em caso de insatisfação, a folha de reclamações estará disponível ao fim desse post. Mentira. Clique aqui que tem mais sobre o piruá. Você pode reclamar na seção de comentários mesmo.
Depois do episódio piruá, a primeira pregunta da menina foi: “Mas… em português existe um nome para o milho de pipoca que não estoura?”. Sim! E de onde veio essa hay muchas más, chica! Foi aí que pensei: como é que existem tantas palavras neste mundo de meu deus e idiomas derivados do latim e às vezes ficamos sem nenhuma?
Eu disse tudo isso, com esse montão de palavras, para contradizer o título e voltar ao assunto do post: nem foi assim tão fácil responder as tais perguntas da brincadeira do selo do blog. Mas vamos lá! Aí embaixo você vai ver, sintética e previamente definida, uma síntese das três que assinam este blog:
- Nome: Marina
- Uma música: muito, muito difícil. Mas eu sempre amo “Don’t get me wrong”, do Pretenders.
- Humor: pode mudar bastante dependendo do das outras pessoas
- Uma estação do ano: primavera
- Como prefere viajar: em boa companhia
- Um seriado: Friends
- Frase ou palavra mais dita por você: hahahahahahaha
- O que achou do selo: uma bela surpresa e muito significativo
- Nome: Mayra
- Uma música: gosto de Relicário, do Nando Reis.
- Humor: crescente ou decrescente à medida que a pessoa mereça.
- Uma estação do ano: verão
- Como prefere viajar: viajar é sempre bom! mas quando é a pesseio, melhor que a trabalho
- Um seriado: LOST
- Frase ou palavra mais dita por você: já tá na hora de comer?
- O que achou do selo: uma fofura
- Nome: Carolina
- Uma música: The weary kind, Ryan Bingham
- Humor: Bom. E relativamente estável.
- Uma estação do ano: Primavera.
- Como prefere viajar: Bem acompanhada e a passeio.
- Um seriado: FRIENDS (nota da redação: o caps lock é dela, gente)
- Frase ou palavra mais dita por você: é a morte/morri/morro/quer que eu morra.
- O que achou do selo: Achei o máximo! Somos recomendadíssimas, coisa fina.
Por Má-Má, com participações das duas especiais.
O que te move?
Dependendo da pessoa para quem você perguntasse, poderia ouvir: “Ora, pois! Seus pés!”. Não, não estou fazendo piadas etnocentristas, garanto. Quase isso aconteceu de verdade com uma pessoa que não riu na cara de quem disse porque é incapaz de ofender alguém. E também porque quem disse não estava em nenhum momento ironizando, mas racionalizando (a não-novidade aqui é que, sim, foi em Portugal). O que nos leva à resposta da pergunta desse post: o que nos move? Certeza que razão é que não é. Também te garanto; porque uma professora da cabeça muito inteligente me falou. Mas não só por isso; porque é fato que o que nos move a fazer piadinhas bobas, rir delas, ofender-se ou simplesmente ignorá-las são as benditas emoções.
Ok. Nem sempre tão benditas, mas abençoadas, vai. Quem aqui nunca teve vontade de maldizer até a última geração de determinada emoção? De jogar na cara do primeiro hormoninho que foi liberado para que ela fosse sentida o quanto ele é odiado? De interromper o primeiro passo do processo cognitivo que nos levou a não gostar de algo que sentimos? (A explicação mais profunda disso eu ouvirei da minha professora da cabeça inteligente na próxima aula). Mais do que isso, quem aqui preferia não sentir nada do que sentir algo ruim? Eu, definitivamente, não faço parte desse grupo. Porque sinto… às vezes até demais, às vezes, só sinto muito. Mas sempre com intensidade. E isso é mais do que ter vontade de viver. É já estar vivo.
Enquanto isso, a tal da razão, que adora brincar de esconde-esconde, ri de mim, se diverte às minhas custas, porque sua capa da invisibilidade (sim, eu continuo me esforçando para não deixar os trouxas me chatearem) dá um baile nas minhas lentes corretivas de miopia, que definitivamente não têm o poder do raio-X.
O lado bom de tudo isso é que mover-se, mesmo sem sair do lugar, é bastante especial, não? Pois então bendiguemos as emoções, ainda que às vezes não saibamos muito bem como lidar com elas. Não dá para ser perfeito. E a dona razão estará sempre por perto para soltar uma risadinha irônica quando você achar que vai perder a linha por não encontrá-la. Nessa hora, sim, eu tento agarrá-la com força. Se for preciso, perco algumas horas de sono tentando convencê-la a ficar comigo, a segurar minha mão e a dizer que vai ficar tudo bem, meu bem. O que não perco é a chance de sentir, na esperança de que, com o tempo e a diversidade de emoções, elas se tranqüilizem, se convençam de que cada uma tem seu lugar cativo, estarão eternamente coladas no meu coração, mesmo quando eu sinto que ele virou um vermelho balão, e está rolando e sangrando, chutado pelo chão.
Por Má-Má (às vezes, toda errada, mas sempre com as melhores das intenções, ops, emoções).
Para quem curte mover-se no mode [extreme], um clássico:
Não entre sem bat…ops… olá!
Você tem algum segredo? Consegue esconder informações, episódios, detalhes sobre você que mais ninguém saiba? Nem adianta argumentar com suas senhas porque, por mais que algumas só façam sentido para quem as cria, é possível que em algum momento você tenha que revelá-las para o Help Desk ou para qualquer funcionário de um banco que você sequer sabe quem é (e isso talvez cause até um pouco de vergonha). As senhas serão trocadas e você terá um novo segredo, mas aquela anterior já terá sido revelada; só isso basta para ela deixar de ser privada. Já o que você gostaria de guardar lá na última gavetinha daquele móvel chamado introspecção (que eu gosto de chamar de privacidade), cuja tendência é virar criado-mudo e depois tornar-se uma caixinha de fósforo… bem… isso é quase certo que seja revelado assim que você estiver desesperado procurando uma meia limpa. E, dependendo do seu grau de neurose e autodestruição, quando a gavetinha for aberta, você quererá (tá aí um tempo verbal pro querer que eu sempre evitei) ser cobaia do brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Eu e meu armário embutido de oito portas de neurose e autodestruição (e um outro com o dobro de portas lotado de amor. Sim, meu coração é grandão mesmo) estamos aprendendo muito com isso. Hoje, quando quero dividir tristezas e alegrias com quem eu amo (e que acho que sentirão o que sinto na mesma intensidade que eu), acabo dividindo com mais umas centenas (meus amigos no Facebook, por exemplo). Dentro e fora da rede, nem sempre é óbvio para mim por que fulano a “curte” meu link, sicrano “comenta meu status” e beltrano “marca uma foto minha”.
Isso porque, nunca antes na história deste país (deste onde estou e do que eu habitava anteriormente), minhas gavetas estiveram tão abertas. Se você conhecesse meu armário (as 24 portas que citei, pelo menos), saberia que tudo está organizado por estilo e cores: cada sentimento em sua gaveta certa, cada história longa no respectivo cabide, cada autojulgamento cruel em sua caixinha de cristal… tudo inutilmente armazenado e separado! Porque se tem uma vantagem em abrir essas gavetas é que muita gente me ajuda a encontrar as tais meias, muitas vezes onde eu sequer procuraria, simplesmente porque EU não as teria colocado lá. E, apesar de eu ter demorado para perceber, hoje sei que, assim como os Muppet Babies, quando eu fecho os olhos, todos eles fazem uma grande bagunça, só para me desafiar. E que trabalho me dava para colocar tudo no lugar! Dava… porque as roupas eu ainda faço questão de separar, mas as portas dos sentimentos, dos defeitos e (por que não?) das qualidades, estas eu tenho deixado abertas. Por isso, se você achar uma camiseta manchada, uma calça furada, uma meia – ai – encardida, ou gostar da saia nova … let me know. Já não será segredo entre nós mesmo!
Por Má-Má.
