Eu idealizo, tu idealizas, ela idealiza
“Sonho é uma coisa super comum, a gente tem desejos, vontades, quer correr atrás, muitas vezes consegue, muitas vezes não, aí a gente cresce, muda de sonho e começa tudo de novo, isso mesmo, como em um ciclo vicioso”.
G. tem 18 anos recém-completados e ingressou em uma das faculdades federais mais concorridas do País. Mas não é a esse sonho que ela se refere na carta que me enviou.
“O dia mais esperado há tempos, finalmente havia chegado. O show começou e eu não acreditava que meu sonho estava tão perto, porém tão distante ao mesmo tempo. Você pode acreditar, eu como super-ultra-megablaster-plus-advanced-máster fã, não chorei durante o show. O show acabou, saíram do palco, aquela conversa baixinha foi aumentando e então percebi que não havia mais nada. Ninguém no palco, nada de guitarras tocando, nada do som da bateria, nada de baixo. Então eu me sentei no chão e chorei, chorei tudo o que eu havia guardado dentro de mim”.
G. era uma daquelas milhares de meninas, muitas ainda crianças, que choravam, me imploravam por um gole d’água e eram retiradas pelos seguranças passando mal, esmagando-se umas às outras. O que as reuniam naquela noite? O show do McFly, uma das boy bands do momento.
G. é a representação perfeita da necessidade humana de idealizar. Quem nunca idolatrou aquele gatinho pop star-celebridade-modelo-ator? Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em chegar perto de Brad e Tom. E se não fosse essa nossa capacidade de iconização, o reinado dos garotos populares nos colégios chegaria ao fim.
Encontramos casos parecidos com o de G. na religião. Fanáticos que entregam 10% da renda mensal para ajudar na manutenção da Casa do Senhor e seguem à risca os mandamentos de suas Igrejas, não se entregam aos prazeres da carne e ainda acham que comer um chocolate sem ter fome significa o pecado da gula. A única diferença, nesse caso, é que o ídolo não é mais McFly. É o “Pai nosso que estais no céu”.
A edição de maio da revista Super Interessante publicou o resultado de pesquisa do Instituto de Saúde dos EUA (NIH) que confirma que nossos cérebros já nascem predispostos a acreditar em Deus. Quando as pessoas pensam em Deus, de acordo com o NIH, ativam os mesmos neurônios que possibilitam a capacidade de entender o que outras pessoas estão sentindo e simpatizar com elas. Com a criação de sociedades mais complexas, quem tinha o cérebro mais crente se sobressaía: acreditava em mitos e era mais sociável. Hoje, mesmo com o avanço da ciência, a crença no sobrenatural ainda é mais do que comum.
O fato é que precisamos acreditar, sonhar, idealizar, iconizar. Precisamos criar expectativas, esperar que algo seja perfeito, do jeitinho que imaginamos, a garantia de uma luz no fim do túnel. A palavra é… PRECISAMOS. Afinal, a vida seria vazia sem isso. Vai dizer que sua vida teria graça sem sonhos e expectativas? Sem ter algo a que se apegar, seja o McFly, Deus, aquela linda viagem ou o emprego perfeito?
Mas toda cautela é pouca. Com tanta idealização, é fácil, fácil quebrar a cara. E até a G. sabe disso. “A questão é que eu aprendi que chorar não resolve problemas, e que esperar o Danny Jones cair do céu para casar comigo é pura ilusão”.
Ah se a G. soubesse que Danny Jones é baixinho, tem cabelo seboso, cobre as espinhas com pó compacto e tem dentes amarelados…
Por Aline Shiromaru, convidada especial do Palavra Final.