Eu idealizo, tu idealizas, ela idealiza

Maio 29, 2009 at 10:15 am (Post)

“Sonho é uma coisa super comum, a gente tem desejos, vontades, quer correr atrás, muitas vezes consegue, muitas vezes não, aí a gente cresce, muda de sonho e começa tudo de novo, isso mesmo, como em um ciclo vicioso”.

G. tem 18 anos recém-completados e ingressou em uma das faculdades federais mais concorridas do País. Mas não é a esse sonho que ela se refere na carta que me enviou.

“O dia mais esperado há tempos, finalmente havia chegado. O show começou e eu não acreditava que meu sonho estava tão perto, porém tão distante ao mesmo tempo. Você pode acreditar, eu como super-ultra-megablaster-plus-advanced-máster fã, não chorei durante o show. O show acabou, saíram do palco, aquela conversa baixinha foi aumentando e então percebi que não havia mais nada. Ninguém no palco, nada de guitarras tocando, nada do som da bateria, nada de baixo. Então eu me sentei no chão e chorei, chorei tudo o que eu havia guardado dentro de mim”.

G. era uma daquelas milhares de meninas, muitas ainda crianças, que choravam, me imploravam por um gole d’água e eram retiradas pelos seguranças passando mal, esmagando-se umas às outras. O que as reuniam naquela noite? O show do McFly, uma das boy bands do momento.

G. é a representação perfeita da necessidade humana de idealizar. Quem nunca idolatrou aquele gatinho pop star-celebridade-modelo-ator? Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em chegar perto de Brad e Tom. E se não fosse essa nossa capacidade de iconização, o reinado dos garotos populares nos colégios chegaria ao fim.

Encontramos casos parecidos com o de G. na religião. Fanáticos que entregam 10% da renda mensal para ajudar na manutenção da Casa do Senhor e seguem à risca os mandamentos de suas Igrejas, não se entregam aos prazeres da carne e ainda acham que comer um chocolate sem ter fome significa o pecado da gula. A única diferença, nesse caso, é que o ídolo não é mais McFly. É o “Pai nosso que estais no céu”.

A edição de maio da revista Super Interessante publicou o resultado de pesquisa do Instituto de Saúde dos EUA (NIH) que confirma que nossos cérebros já nascem predispostos a acreditar em Deus. Quando as pessoas pensam em Deus, de acordo com o NIH, ativam os mesmos neurônios que possibilitam a capacidade de entender o que outras pessoas estão sentindo e simpatizar com elas. Com a criação de sociedades mais complexas, quem tinha o cérebro mais crente se sobressaía: acreditava em mitos e era mais sociável. Hoje, mesmo com o avanço da ciência, a crença no sobrenatural ainda é mais do que comum.

O fato é que precisamos acreditar, sonhar, idealizar, iconizar. Precisamos criar expectativas, esperar que algo seja perfeito, do jeitinho que imaginamos, a garantia de uma luz no fim do túnel. A palavra é… PRECISAMOS. Afinal, a vida seria vazia sem isso. Vai dizer que sua vida teria graça sem sonhos e expectativas? Sem ter algo a que se apegar, seja o McFly, Deus, aquela linda viagem ou o emprego perfeito?

Mas toda cautela é pouca. Com tanta idealização, é fácil, fácil quebrar a cara. E até a G. sabe disso. “A questão é que eu aprendi que chorar não resolve problemas, e que esperar o Danny Jones cair do céu para casar comigo é pura ilusão”.

Ah se a G. soubesse que Danny Jones é baixinho, tem cabelo seboso, cobre as espinhas com pó compacto e tem dentes amarelados…

 

Por Aline Shiromaru, convidada especial do Palavra Final.

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O doce de leite e o chocolate

Maio 27, 2009 at 9:51 am (Post)

Eu sempre gostei de chocolate. Ao leite, sem muito recheio. No máximo uma uva passa aqui, uma amêndoa ali. Aerado também sempre esteve na lista dos mais-mais, mas eu gosto mesmo é do maciço, sem firulas e distrações.

Já o doce de leite… apesar do ato de carinho elevado à décima potência da minha mãe em deixar a lata de leite condensado em banho-maria (doce de leite lá em casa sempre foi assim, quase nunca comprado pronto), nunca encheu meus olhos (nem boca) d’água.

Minha irmã chegava a levantar à noite para comer doce de leite na colher, direto da lata. Na noite seguinte, quando eu abria a geladeira para tentar abastecer meu corpo de um pouco mais de açúcar, a surpresa: precisava raspar a lata para encher 1/3 de uma colher de sopa.

O chocolate aparecia lá em casa quase na mesma freqüência do doce de leite, mas durava bem menos. Isso porque aí era eu que reforçava o consumo. Cresci assim, com o chocolate e o doce de leite sempre presentes, mas cada um ocupando o respectivo lugar na minha lista de desejos.

O chocolate era o que eu tinha vontade de pegar, comer em três minutos antes que ele sumisse, lambuzar os dedos e aguardar a próxima oportunidade de devorar novos quadradinhos de prazer. O doce de leite, apesar de aparecer na mesma quantidade, parecia estar sempre mais disponível. Era doce, tinha uma consistência gostosa, eu adorava sua cor (igual à do meu armário durante minha infância), mas, se só 33% da colher fosse preenchida, tudo bem.

Não sei que raios o doce de leite tem a menos ou a mais que o chocolate para simplesmente não fazer tanta diferença na minha vida. Gostos, vontades e desejos não se discutem, mas deveriam se explicar melhor, não? Ou ao menos causar menos confusão na nossa vida. Afinal, é um direito de quem é obrigado a se render a eles!

Mas não. Há respostas (vide post anterior da May) que creio que nunca teremos. Só pode ser por isso que certas coisas fazem tanta diferença em nossas vidas; justamente por não conseguirmos saber o que os torna tão especiais em relação às outras.

E não adianta dizer “Ah, mas e aquele caramelo coberto com chocolate?”. Não. “E com bolacha no meio?”. Humm… não. “Nem se tiver uva passa que você tanto gosta?”. Nãããão. Quando é que nossos desejos mais simples passaram a ser os mais difíceis?

Por Má-Má.

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Por que não há respostas para todas as perguntas do mundo?

Maio 24, 2009 at 10:10 pm (Post)

Por que a vida não é feita de bolhas de sabão, sorvete de flocos e gargalhadas?

Por que existem pensamentos malvados que vêm nos atormentar quando estamos quase dormindo?

Por que os amigos não são botões pra gente poder carregar todos no bolso?

Por que os sonhos não são uma prévia da realidade que virá? E por que eles às vezes parecem permitir, de maneira quase covarde, que os pesadelos tomem conta das madrugadas em que se quer só descansar?

Por que as músicas não são tocadas pelo vento?

Por que as lágrimas não respeitam nossa vontade de deixá-las ou não escorrer pela maça do rosto e embaçarem nosso horizonte?

Por que nem todo mundo entende o idioma do olhar?

Por que perfumes são tão difíceis de esquecer?

Por que aquele amor não dura pra sempre?

Por que insistimos em não acreditarmos no que sentimos?

Por que ninguém compreende que eu gosto de estar sozinha e nem por isso sinto-me solitária?

Por que tem gente que não acredita que já foi tudo na vida da gente?

Por que não passamos a vida inteira dançando?

Por que existem pessoas que ignoram a vontade de sorrir?

Por que as crianças não governam o País?

Por que não podemos rever todos aqueles por quem sentimos saudades?

Por que todos os homens do mundo não são como ele?

Por que algumas pessoas não enxergam as cores das palavras?

Por que nem todas as brigas acabam em abraços e beijos?

Por que não podemos fugir quando temos vontade?

 

 

Por que, May?

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Uns hermanos bem diferentes…

Maio 20, 2009 at 2:13 pm (Post)

Acabo de voltar depois de 15 dias de férias, 10 deles passados na Argentina. Além de uma Buenos Aires charmosíssima, vi paisagens (em El Calafate e Ushuaia, ambas já na Patagônia) que nunca pensei que essas lentes e olhinhos míopes que a terra há de comer veriam.

Sobre a viagem, tenho muito o que postar! Mas hoje quero compartilhar algo além da Cordilheira dos Andes, presente em aproximadamente 80% das nossas fotos: as pessoas que fazem meus passeios serem especiais.

Sou fascinada por gente de países diferentes do meu. Gosto de ver a cor dos seus passaportes e tentar adivinhar, pelo idioma, pela roupa, pelo que as faz rir, de onde são. Na Argentina, aprendi com uma finlandesa adolescente como se diz “tchau” em finlandês! Em ortografia livremente imaginada por mim, seria algo como “Môi-Môi”. Com M em letra maiúscula mesmo, porque tem que reforçar bem o som anasalado dele.

Além dela, mais onipresente que a Cordilheira, estava uma família de indianos, que nos acompanhou – involuntariamente – durante toda nossa estadia em El Calafate. Por mais que Glória Perez tenda para a caricatura, há traços culturais que não se pode ignorar. A família era rica, grande, barulhenta e estava claro que o casal de senhores era o pai e a mãe dos três homens, acompanhados pelas respectivas esposas e crianças. As mulheres pareciam recém-saídas de um comercial de shampoo, com seus cabelos pretos e brilhantes. As crianças eram duas meninas de uns quatro ou cinco anos que nunca usavam luvas e um bebê – ah, o bebê! – que estava sempre enrolado em um cobertor bem justinho.

Em alguns momentos, a mãe sentou com o bebê do meu lado no avião (Tudo começou aí. Eles não paravam de trocar de lugares durante o vôo, então pude dividir o encosto de braço com quase todos). Ele devia ter uns dois meses, no máximo, e já tinha bigode. Juro! Os cílios eram imensos também. Olhei-o por cima, como alguém que lê o jornal alheio no metrô. Não vi a ponta do nariz dele, mas vi os cílios que saltavam do seu rosto peludinho. Ele tinha a pele bem morena e nunca abria o olho. Ali, todo enrolado no cobertor bege, com aquele semblante impassível de qualquer movimento, eu vi um amendoim. Ele é o nosso bebê amendoim.

Ele estava conosco no parque nacional dos glaciares (glaciar é um monte de neve acumulada que forma um paredão, como uma geleira, só que no pé da montanha) em Calafate. Continuou de olho fechado, mas saiu em todas as fotos que o fotógrafo oficial tirou da família, que se revezava no melhor canto da embarcação. Coisa de turista rico!

Ele também estava no dia seguinte, quando navegamos em um catamarã entre os témpanos (ou icebergs). O bebé maní (versão do apelido em espanhol) apresentava versões diferentes do seu cobertor, mas eu só via um grande amendoim, ora coberto de uma crosta de açúcar, ora de chocolate, ora de glacê azul. Em algum momento do passeio, minha irmã desceu ao primeiro piso do catamarã para ir ao banheiro. A porta estava trancada. Ela esperou uns 15 minutos, insistindo em mexer na fechadura para botar pressão. Até que – adivinhem – saem a mãe e o bebê amendoim! Claro que se sentiu culpada. Quem somos nós para incomodar a troca de casca do bebê amendoim?!

Já no último dia em El Calafate, estávamos tranquilamente jantando no último restaurante da cidade, afastado do burburinho da única rua com duas vias. Aos poucos, mais pessoas chegavam ao restaurante e um montinho de pessoas se aglomerou na salinha de espera. Eu estava pensando no bebé maní, se eu o veria novamente antes de partimos para o fim o mundo. Eu e minha família ríamos só de lembrar do petisco em forma de criança.

Minha irmã estava na frente e, ao passar pela salinha, olhou pra trás, parecendo que ia explodir de tão roxa. Só conseguiu dizer: “Marina, você não vai acreditar.”. E saiu correndo pra fora do restaurante. Quando olhei, lá estava o minduca, com mais uma versão de cobertura. Foi a última vez que eu o vi. É impressionante como alguém que não fala, não se mexe, e sequer abre o olho, tenha uma presença de espírito tão forte.

Não consegui tirar foto do bebê amendoim. Não arrisco dizer que é a mesma coisa, mas, para você sentir o gostinho (dispensando os trocadilhos), ele é mais ou menos assim:

.hare baba, bebê amendoim!.

.hare baba, bebê amendoim!.

 

Por Má-Má.

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Eles

Maio 10, 2009 at 9:22 pm (Post)

Ela é assim. Já nasceu provocante. Capaz de causar as mais diferentes reações nas pessoas. Ela chega e a gente percebe. Não tem como não notar. Olhos que marcam. Personalidade que estapeia a cara de alguns. Amiga para todas as horas. Não tem nunca a intenção de intimidar, mas de incentivar. Mas a natureza vai contra e, às vezes, intimida demais. Intimida aqueles que não a conhecem. Ela sabe levar a vida. Vida que nem sempre foi fácil. Amores doloridos. Amizades decepcionantes. História comovente. Alegria e energia sempre.

Ele é mais que sonhar. Nasceu poeta. Tem a capacidade de adivinhar seus sentimentos e os transformar em palavras, melodias, canções. É companhia agradável. É divertido e introvertido ao mesmo tempo. Difícil imaginar? Então você não o conhece. Sensibilidade que lhe escapa da razão. Ele vive intensamente. Cada propósito é uma missão. Cada sensação é uma promessa.

Ela transpira audácia. Não tem medo de cara feia. Não pede licença pra ser sincera. Não mede quando gosta. Não raciocina antes de sair da onde está para ir onde for para acudir uma amiga. Não tem vergonha de chorar de saudades. Não teme dizer que não se importa. E que se foda.

Ele. Que se foda, vou cantar. Vou sonhar que é de graça. Vou ser assim porque quero. Porque sou e sou. Uma pessoa simplesmente interessante, que te faz refletir sobre aquilo que você sempre pensou ter certeza ou não. Que é dono de um humor inteligente, coerente; daqueles que chega a ser invejável de vez em quando.

Ela, uma mulher estonteante. Ao mesmo tempo, uma menina em busca das melhores partes da vida. Da vida dela e de cada um que cruza seu caminho. Em busca de momentos que sejam inesquecíveis e pessoas que quando longe, façam doer o coração de saudade.

Ele… ahh por que sempre me faltam palavras pra falar dele? Acho que é porque ele as guarda com ele. Pensamentos e ideias que surpreendem de tão compreensíveis e sensatas. As que não fazem sentido parecem óbvias quando ditas por ele. Frases que não poderiam ter sido ditas de outra forma por outra pessoa em outra ocasião. Frases que nasceram naquele exato instante pra no seguinte morrerem com o sentimento de tarefa cumprida. Comentários que te deixam pensando. E outros que te desconsertam.

Ele e ela agora se encontraram.

 

Por May.

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