Um dos muitos de São Paulo

Agosto 4, 2008 at 9:33 am (Sem categoria)

Como nós do Palavra estamos nos empenhando muito para que vocês leiam coisas novas e interessantes aqui, nos surgiu a idéia de fazermos uma semana temática. Sim! Nada de Páscoa, Carnaval ou Natal… muito previsível, não? Faremos uma semana com o tema ‘Personagens Urbanos’. Afinal, quem nunca percebeu figuras estranhas e admiráveis na correria do dia-a-dia paulistano? Às vezes estamos atrasados, pensando na lista enorme de pendências, aquele trânsito desgraçado e tem um maluco gritando palavras perdidas com o entusiasmo de um político que discursa em seu comício. E daí não tem como, você ri e, por um segundo, o inveja. Eu sim. E você?

 

Dos 4 anos e meio que moro em São Paulo, 2 deles vim à avenida Paulista pelo menos 6 dias por semana, 2 e meio deles moro nela. E foi aí que conheci o mendigo da Paulicéia. Posso me considerar íntima dele, uma vez que já o vi fazendo suas necessidades físicas e extravasando seus reprimidos desejos sexuais, além de claro, vê-lo divagando sobre diversos assuntos e chamando sempre por alguém que, juro, mora no edifício Paulicéia.

 

“Só o pessoal da Cásper mesmo para fazer isso!”, foi o que minha irmã disse quando eu, super empolgada e orgulhosa dos meus conterrâneos de faculdade, contei que um pessoal de Jornalismo decidiu entrevistar o mendigo da Paulicéia. E não pense você que não deu em nada. O cara é doidão, mas tem história. E contou pra eles. Diz que ele é engenheiro civil, sempre trabalhou e foi honesto. Tem família: mulher e filhos, que de vez em quando tentam pegá-lo, levam-no pra casa, dão banho e roupa limpa. Mas ele gosta mesmo é da calçada da av. Paulista. Isso quando ainda eram paralelepípedos. Imagina agora. 

 

Ele contou que na época do Collor, enlouqueceu. E pronto. Continua louco até hoje. E ele já me rendeu boas risadas. Vira e mexe tem alguém conversando com ele. Sempre tive vontade, mas nunca a audácia. Mas sempre reparo nele. Se trocou de roupa. Se está descalço. Se está mais fedido que o usual. E quando não o vejo por lá, mesmo contra minha vontade, minha consciência insiste em pensar no pior. Nunca foi exatamente isso. No dia seguinte ele está lá de novo. Enquanto eu vou ao trabalho, ele está estirado no chão tomando um solzinho muito convidativo.

 

Dividi minhas percepções do mendigo da Paulicéia não só com o pessoal da Cásper que, pela proximidade física, sempre teve muito carinho pelo mendigo, mas também com minha irmã. Certa vez, durante o ano em que ela morou na Tailândia, o sr. José Carlos (sim, é esse o nome dele) sumiu por uns 5 dias. Mandei um SMS pra ela: “o mendigo da Paulicéia sumiu. E agora é sério”. Quando ele reapareceu, estava de cabelo raspado e fiquei sabendo que a polícia havia o pegado pra dar banho, cortar o cabelo e tomar as medidas cabíveis. Pois liguei o Skype pra contar pra minha irmã que sr. Zé Carlos estava são e salvo. São nem tanto, mas salvo. E não me julgue por ter precisado desabafar com alguém sobre os últimos acontecimentos do mendigo. Afinal, eles tinham cortado os dreads que já batiam no ombro dele!

 

Ok. Minha consideração pelo mendigo da Paulicéia não se explica. Mas quem disse que tudo nessa vida precisa de explicação? Precisamos infiltrar mais maluquices em nossas vidas. O importante é que ele sempre esteve ali. No mundo dele. E em alguns momentos pelos quais passava por ele, desejava sua insanidade. Desejava sua insistência e eloqüência ao discutir com alguém imaginário assuntos sem sentido algum. Desejava sua preguiça ao deitar no meio da rua em que todos passam correndo para algum lugar.

 

Nunca o vi abordar alguém. Nunca fiquei sabendo que ele assaltou alguém. Nunca cuspiu em ninguém, atitude característica de mendigos malucões. Ele só quer morar no Paulicéia. Ou melhor, na calçada do Paulicéia. Deixa ele, pô.

 

Essa grandeza toda não é maior que sua loucura (nem que seu sossego).

 

Por May.

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