Para quem é bom de verdade…
Já estive por aqui fazendo uma homenagem às pessoas que avisam que a porta está aberta, um tipo especial que me faz acreditar na humanidade. Pois eu nem preciso me aventurar em grandes avenidas para conhecê-las. Elas estão à minha volta todos os dias, desde que eu nasci: da vizinha que tentava cessar meu choro ao som de Melô do Marinheiro, dos Paralamas, nos meus primeiros meses de idade, à amiga que conheci no dia do trote e concordou comigo que era perigoso demais ir à casa de um garoto que havíamos conhecido naquele dia, fazendo pedágio na Brigadeiro Luís Antônio.
Essa é uma história sobre uma pessoa que, de tão boa, obteve compaixão de quem não poderia ter nenhum traço de bondade. Estou falando de uma grande amiga e de um ladrão mesmo. Essa história me faz rir só de ser lembrada. E espero que eu consiga reproduzi-la com todo o bom humor que ela carrega.
Estava ela esperando a mãe chegar em frente a um ponto de táxi. Batendo papo com um taxista, um rapaz se aproximou. Expansiva, simpática e linda, claro que ela respondeu ao “Boa tarde” que ele dirigiu a ela e ao motorista de táxi e ali mesmo engatou uma conversa. Ela segurava o celular recém-adquirido, sem arranhão algum, quando nem era tão comum ter câmera acoplada, esperando a mãe anunciar a chegada. Todo articulado, o rapaz disse a ela: “Nossa, a minha esposa está doida por um celular desse! Ela está logo ali! Faz um tchauzinho pra ela!”. Na esquina, uma moça acenou e sorriu para minha amiga. Então a reciprocidade se manifestou e claro que ela respondeu com um sorriso de iluminar qualquer penumbra. Sentindo confiança, o moço disse: “Olha, você poderia emprestar o seu celular rapidinho pra eu mostrar pra ela e ver se é esse mesmo? Quero comprar de presente!”.
Minha amiga titubeou, mas pessoas bondosas como ela duvidam que outras pessoas também não o sejam. Foi assim que, voluntariamente, ela entregou o aparelho nas mãos do desconhecido que parecia estar tão empenhado em agradar a esposa (Claro. Porque romantismo nunca é demais pra esse tipo de ser humano). Eis que, para provar que ainda é possível ter fé na humanidade sem que ela precise dar um toquinho duplo na buzina, foi o rapaz que titubeou. Ele voltou e disse: “Olha, fica com o meu celular por enquanto… como garantia de que eu volto pra devolver o seu”.
Como há coisas na vida que a gente não explica, foi depois de dois passos que o rapaz deu que a mãe da minha amiga chegou, buzinando. Na seqüência, o diálogo:
- Peraí, mãe! O moço foi logo ali…
- Que moço!? Entra logo no carro! Não posso parar aqui!
- Mas… o moço… meu celular…
- Mas o quê!? Não posso parar aqui!!! Entra logo!
- Mãe! Caramba! A esposa… ali, na esquina!! Mas…
- Você foi roubada!?
- Acho… acho que fui… seu João, cadê seu amigo!?
- MEU amigo?! Pensei que fosse seu! Nunca vi aquele cara!
- Mas…
- Anda, filha! Não acredito! Entra logo!
O celular do ladrão, sem quaisquer informações pessoais, ficou em posse da minha amiga por quase dois anos, até os pais julgarem ser seguro dar-lhe um novo aparelho, quando ela completou 20.
Hoje, pelo acúmulo de pontos com a operadora, ela conseguiu gratuitamente um novinho, lindo, todo moderno e está toda orgulhosa de ter abandonado de vez a idéia de entregar celulares para pessoas desconhecidas mostrarem aos seus cônjuges.
Mas o sorriso e a simpatia, ah, isso ela não abandonou. E eu me sinto uma pessoa melhor só de poder ouvir essa mesma história incansavelmente da protagonista, acompanhada por um sorriso tão bom que resgatou a bondade em um pilantra muito do esperto!
Por Má-Má.