Alguém me avisa quando se começa a ser adulto?

Julho 1, 2008 at 8:51 pm (Sem categoria)

Dos 14 aos 17 anos, fui assinante da revista Capricho; e todo aquele universo teen e glam fazia tanto sentido pra mim! As boy bands, o primeiro beijo, as dúvidas sobre sexo, o ICQ… até que veio a faculdade e, com ela, a Escola de Frankfurt, Gilberto Freyre, o olhar panóptico e a professora Jurema. Então a assinatura da revista expirou e eu não tive vontade de renová-la.

 

O primeiro fichamento e um esboço do que seria uma monografia lá em 2004 não chegaram nem perto do que veio a se concretizar como o meu TCC (lá na Cásper, chamado carinhosamente de PEX – Projeto Experimental) em 2007. Depois disso, toda a “adultice” que eu pensei ter incorporado durante os quatro anos sem ler a Capricho se tornaram teen demais do alto dos meus 21 anos (quanta prepotência!).

 

Dizem por aí que os vinte e poucos anos são decisivos! Eu acho mesmo é que eles são muito confusos. Saí de férias depois de cinco anos sem descanso, assisti a muitos filmes da Sessão da Tarde, matei saudades do Vídeo Show e de ficar de pijama até duas da tarde, arrumei todas as minhas bijuterias e, quando voltei, tinham virado uma chavinha lá no trabalho (como se tivessem me transformado do 110V pro 220V sem me avisar) e me transformaram numa adulta. Nessa condição, participar de reuniões com gerentes usando meu lápis de estampa de tigre já causa risinhos nos participantes e manifesta reações do tipo: “Ah, mas essa é uma figura mesmo!”. Poxa, quando é que ser adulto significa perder o bom humor (e, nesse caso, o estilo)?!

 

  

Ahm, então deve ser quando você deixa de ser espectadora pra ser palestrante. E, mais estranho que isso, quando as pessoas dizem que você até leva jeito pra coisa! Mas, mesmo à vontade no papel, o que não te deixa à vontade é ter que tirar aquele terninho do armário, seu scarpin salto 10 e colarzinho de pérolas para, ao menos, tentar disfarçar o recém-abandono da adolescência. Aí você se adapta e mantém tudo muito controlado até que se sente tão à vontade (como qualquer adolescente faria) para soltar o primeiro “tipo” no meio do discurso sobre como a Comunicação pode contribuir para evitar o retrabalho em empresas com turnos de produção (?). E você conclui que todos os presentes, nascidos na década de 70 ou mais pra trás, têm certeza de que há quatro anos, você acompanhou com entusiasmo o lançamento de “One more time” da Britney.

 

Aí eu suplico: alguém me diz quando se começa a ser adulto!? Porque já não me sinto constrangida pra falar sobre meu primeiro beijo, mas aquele carinha que parece ter saído de um catálogo da Luigi Bertolli faz minha mão suar e eu continuo sentindo meu estômago dar um nó quando ele aparece, como senti antes do primeiro beijo.

 

Também acho que me saí bem no papel de palestrante e me sinto segura pra dar conselhos sobre minha profissão, meu trabalho e minhas tentativas (frustradas ou nem tanto) de relacionamentos amorosos (ou nem tão amorosos assim). Mas então por que o IRRF me irrita tanto? E por que eu tenho vontade de atirar uma bolinha de papel na cabeça daquele cara mala do trabalho?

 

Pior que tudo isso, por que ainda tenho espinha mas, mesmo assim, aquela calça jeans linda que comprei pro meu aniversário de 15 anos já não passa mais pelo meu quadril? Ou será que já virei adulta quando descobri que, antes do Jacob Dylan, o Bob já era charmosíssimo, talentoso e revolucionário? Ou o topetinho com gel dos garotos que curtem CPM22 ficou absolutamente intragável depois que conheci o primeiro barbudo que foi membro ativo da UNE e gostava de música clássica? Ou quando passei a achar normal mudar de opinião ou simplesmente não ter formado uma sobre qualquer assunto?

 

Uma coisa é certa: se em algum dia da minha vida eu achar legal ter um número do PIS, não é porque virei adulta. É porque virei a chavinha da chatice mesmo! Que venham os Bobs, as calças de número maior, os barbudos, as palestras e, claro, os lápis tigrados.

 

Por Má-Má.

 

.até então Frankfurt nem existia.

 

 

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